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sábado, dezembro 05, 2009

A Marginal

“A teus pés”, marginais correndo por dentro de nossos conflitos...
“Inéditos e dispersos” descobrindo o nome que tem

A teu Rio que espeta liberdade e inventa a referencia das provas
Das tuas “Luvas de pelica” que tão bem marcam o inferno de tua passagem

Da cara fria que brota larva poesia
E assume plumas duma geração “mimeografo”

Da puta que sangra com versos nos dentes
E “pousa” nua sob qualquer lente gratuita

Poeta que ninava e dormia com marginais
Bagunçava cabelos, seios, coxas e sexos
Trepava com as ruas e praças públicas
Gozava na ereção da arte barata
E excitava o órgão poético de todos sedentos

Marginal integrante da quadrilha de Leminski, Cascaso e Torquato
Sob o chão do povo, abrindo antigas prisões
Com pés, punhos e versos revoltados
Jogando fora a sobra da roupa domesticada

Cortando e travando a doença
Recuperando o nojo que desbota a elitização
Abolindo a poesia
Jogando na rua, pro povo, pra todos!
Unificando arte e revoluções
Queimando o censor anestesiado dos que vendem sua arte

Eu-poeta
Versos-para túmulo incerto
Ingênua-desavergonhada
Morrendo além de escamas nas palavras que há
Ânus melado e promiscuidade verbal
Transgressora sem teto
Vestida de militante para pisar em nova arte

Cuspida na cara dos amantes lucrativos
Gozo compartilhado por poetas, atores, miseráveis e irmãos...
Vida longa a marginalidade dos poetas!

{Ana Cristina César foi uma das pioneiras do movimento de literatura marginal, participando da "geração mimeografo" contra a elitização literária e ao lado de outros grandes artistas marginais da década de 70. Nasceu e morreu para poesia do povo, cometendo suicídio em 1983.}

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Minha Glória

Não sei se há homenagem
Grande o suficiente
Ou digna
Para tal personagem:
Um paradigma.

Quero transpô-la em versos,
Mas o máximo que consigo são suas lembranças,
Do que vi, ouvi e vivi.

Quero dar-lhe a vocês essa poetisa,
Esse herói e guerreiro criado em mulher,
Que há muito fez e faz sua poesia.
Obra que me inspira.
Autora que reverencio.

Seus cabelos e pele tornam velhas as crianças,
Sua mão trêmula põe medo nos mais corajosos.
Sua visão frágil não prejudica sua compreensão.
Mulher de coração enorme,
Braços que sozinhos ergueram o mundo e os quatro filhos,
E pernas que andaram sem fraquejar.

Escreveu versos duros e doloridos
Escreveu estrofes que deram frutos
Escreveu frutos que deram estrofes
Sua poesia ainda vive
E viverá para sempre em mim
Poetisa da vida poética

Retratou a dor e a alegria,
A morte e a vida,
O amor e a falta dele.
Hoje aguarda a estrofe final.
Sempre escrevendo.
Sua vida.

E a de seu neto.
À Glória, com todo amor.
Minha Glória, minha poesia, minha inspiração.
Te consagro.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

De que anjo veio Augusto?

Que serão dos seus anjos, Augusto?
Que outros poetas eles inspiram... Retiram...
Que veias ardentes de versos crus eles pulsam?

Quem foram teus anjos, Augusto?
Que descuidaram de tua saúde ao ficarem pasmos com tuas escritas...
Que morderam os lábios a cada estrofe que torcia as vísceras...

Onde foram os teus... Os nossos anjos, de Augusto e vários Eus?
Em que papéis escreveram tuas loucuras belas e atrevidas?
Em que portas foram bater para soprar tolices poéticas?

Tragam-me os anjos de Augusto...
Inspirem-me... Expirem-me... Augustem-me...

Que vermes e bactérias sejam sempre exaltados
Que a terra coma todos versos podres
Remetam sempre a imundície de tuas rudes palavras

Que Augusto caia dos anjos e mantenha-se em nossos pecados
Que Augusto cuspa teus escarros e catarros literários
E que eu esteja de boca aberta, esperando por tuas migalhas

E que Augusto durma com os Anjos!

terça-feira, dezembro 01, 2009

Gritos na ceia!

Acordos, contratos, negócios! A cada assinatura, vejo as cifras correndo para minhas mãos. Essa vida me agrada demais e só existe um prazer maior do que o dinheiro, o prazer de comer. Seja na primeira refeição do dia ou no almoço. Seja no chá da tarde ou na ceia antes de dormir. Mas confesso que sinto medo da ceia. É a única refeição do dia em que me sinto desconfortável.
Alguns anos atrás, tudo começou e parece que, até hoje, não teve fim. O horário nem sempre é o mesmo. Mas não importa, sempre acontece quando estou desfrutando a ceia. Não basta trazer as melhores iguarias, nem mesmo estar ao lado das melhores companhias; já fiz de tudo, até mesmo, deixar de comer. O horário é o mesmo.
No começo, o som que ouço é de algo sendo arranhado, como se um cachorro estivesse do lado de fora e tentasse entrar. Pensei que fossem ratos ou qualquer outra coisa do tipo. Mas após isso, começam as pancadas. São altas, perturbadoras. Não compreendo como as outras pessoas não se sentem incomodadas – confesso que nunca falei sobre isso com nenhuma delas.
O pior vem em seguida. Após as pancadas, eu ouço a voz, os gritos. Deus, os gritos! Nesse momento é quando eu interrompo a minha refeição e tento me recolher. Mas não adianta, os gritos me perseguem. Somente após uma ou duas horas que eles se calam, adormecem. E é nesse momento que eu adormeço.
Não tenho como afirmar, mas estou quase certo de que isso começou dias depois do falecimento da minha esposa. Os gritos lembram sua voz. São como se pedissem ajuda, como se pedisse para que a tirassem de lá. Ela estava morta quando a enterramos, o médico confirmou. Poderia ele estar enganado? Poderia ela estar viva? Venho pensando nisso há dias. Lembro-me que ela faleceu no começo da tarde. Mas... e se ela ainda estivesse viva? E se ela tivesse apenas adormecido? Se isso for verdade, ela acordaria algumas horas depois... Acordaria na hora... da ceia!!!

:::: Edgard Allan Poe retratou em diversos contos que escreveu, sua aversão e o terror que sentia de ser enterrado vivo. Seu maior medo era de sofrer de catalepsia, doença que foi retratada na sua personagem Lady Madeline Usher, em um dos seus contos mais famosos no tema: A queda da casa Usher::::

Monumento à Goethe

Sim, sou apenas um viandante, um peregrino sobre a terra! E vocês são algo mais do que isso?

Werther,
Sou levado a crer, após vivenciar tão intesamente teu sofrimento, de sorver do mesmo cálice que sorveste até a última gota desse amargo vinho, de ter sentido na têmpora direita o derradeiro som de pólvora que foi a despedida do mundo pra ti, e – Deus sabe!, tanto quanto ti!

Trocaste palavras íntimas com teu amigo, e no entanto, à despeito de sua inocência no tocante ao fato de não florear seus relatos com artifícios poéticos, o resultados dessas coisas raramente faz juz a intenção de quem se arrisca a exprimir seus sofrimentos em palavras.

Que dirias tu, companheiro de angústias, se visses no que que se tornou o teu desespero, a tua jornada, a tua paixão, tuas lágrimas, tua morte? Ficarias feliz? Indiferente? No entanto, sobre tais conjecturas, abstenho-me de comentar. Tu já deixaste bem claro teus pensamentos e opiniões à respeito do sofrimento dos homens e como eles se relacionam com a poética.

E… também à despeito da grande distância de épocas, costumes, morais e hábitos que nos separam, o cerne dos sentimentos nunca mudou! Na onda de tuas palavras minha mente agora contempla pensamentos sinistros, como tantos outros já o fizeram.

Sim, pois também possuo uma Carlota, como esses tantos outros. E para resguardar-me e me manter distante de tais considerações sobre a minha vida e morte, deparo-me com tuas palavras. Quem sabe se tu tivesses tomado contato com palavras semelhantes em outra época… quem sabe…

Mas que são estas palavras contra o fato em si? Como disseste, se pudesse eu comprimir esse vazio contra meu coração, haveria algo com o quê preenchê-lo. No entanto não há. E nada posso fazer.

Hoje, catedrais e templos de conhecimento estão erguidos em teu nome. Tornastes símbolo e precursor do romantismo – estrada literária esta que tantos outros, até hoje, após tantos séculos, trilham em suas jornadas. Acusam-te de ter desencadeado uma horrenda onda de suicídios, todos inspirados pelo teu grand finalle, mas vê: creio que tenhas salvado mais vidas do que arrancado. A minha, por exemplo. E esta carta nada mais é do que um agradecimento e um monumento, que levanto agora imponente, mesmo que para ser contemplado somente pelas paredes de meu quarto. Todo monumento, é, no fundo, solitário, assim como a quem ele presta homenagem.



[ Perdoem novamente o atraso e por atropelar um de vocês. Podem postar e deixar o meu pra outra página, eu só não queria passar incólume, mesmo no dia errado, pois o tema muito me agradou ]

domingo, novembro 29, 2009

Versos de Barros

Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como
um rosto. (Arranjos para Assobio, 1982. Manoel de Barros)

Em versos transnominados escritos em rastos de lesmas
fico em estado de árvore quando vos leio
Apalpo as intimidades do mundo como o sapo (de barriga pro chão)
lambe a mosca no rasgo do dia

Agora em estado de pedra vejo o canto amarelo
e verde do passarinho vestido de luz
E o silêncio líquido que corre entre
dois jacintos escurece-me de poesia

A poesia? Não serve de nada
se não for para ser incorporada
Tenho profundidades em não saber quase tudo
sem saber que não sei nada

A água que corre nesse riacho
passou em forma de pássaro
no céu rubro da noite anunciada

E o cu da formiga virou-se para o mundo
e mostrou que as borboletas de tarjas vermelhas
quando em túmulos são mais bonitas

Nesse inutensílio que é a poesia
sou professor de agramática
e fazedor de significados que não existem

Melhor: dou ressignificações a palavras
que têm suas bundas viradas para o chão

Coloco cheiro e cor
onde só existia palavra

E como o esplendor da manhã
meus versos também não se abrem com faca