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sexta-feira, dezembro 25, 2009

Renasce

Perdida.
Na contramão dos ideais.
No peito, soa o grito de socorro.
Expectativas de sonhos quase mortos.
Mas a esperança acende a luz de alerta.
Natal branco que não pinta flocos de neve.

Branco só é o teu gosto esquecido no meu coração.

Introspecção.
A madruga dá norte do que pode ser.
E por ora, só há tempestade.
Chuva substitui o gelo.
E não há frio...

O dia que vem é de verão.
Sol que não mais faz poesia de arco-íris.

Água.
Chuva.
Lágrimas sem sal de um céu cinza e triste.
Natal...

Chuva...
Lavando dores de ontem.
Nascendo e morrendo flores de primavera de um ciclo próximo.


Retrocesso.
Corredeiras que carregam este corpo morto.
Nascer é sempre mais doloroso.
Renascer é doer duas vezes.

Passos.
Ofegantes.
Teimosia.
Lembranças.

Os pés, ainda escravos da alma...
Pisam chão que não mais são estrelas.
Pó, poeira, chão.
Seguem.
Procuram pelo caminho que ainda não sabe se virá.

Cansa, porém, continua.

Vive.
Morre.
Nasce.
Renasce.

Mais uma vez, Natal.

Débora Andrade

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Lá fora, as cores do Natal

A roupa tinha o branco e o vermelho já tão tradicionais e cansativos para aqueles dias. Nos olhos a tristeza carregada pelos outros dias do ano e não pelo falso espírito natalino que invade a alma das pessoas, transformando-as magicamente nas mais benevolentes figuras humanas da face da terra (sim, ironia é uma característica minha).

Nas costas, o peso daquele enorme saco, que a cada passo se tornava ainda mais pesado. Na outra mão a chave do carro (você não esperava por um trenó e renas saltitantes, não é?). Noel, que curiosamente carregava esse nome em sua identidade real, tinha um presente especial para entregar e já estava atrasado. Entrou no carro depois de acomodar o saco no banco de trás e partiu ao encontro de uma criança especial. Seria a última pessoa a ganhar um presente naquela noite, mas talvez aquela que daria a Noel a maior satisfação pessoal, ao ver seus olhos quando abrisse o saco.

Depois de praguejar o trânsito, que nem mesmo na noite de Natal dava folga na grande cidade, Noel pegou um atalho que servia mais pra economizar tempo do que propriamente encurtar a distância. Enfim, o bairro...

Seu coração disparou naquele momento. Uma sensação estranha, pois já estava tão acostumado a fazer seu trabalho, que não entendia o porque de tamanha excitação. Obviamente, os seguranças não deixariam um estranho passar pelos portões, ainda mais naquelas circunstâncias. Avisados pelo rádio, os moradores da mansão foram para o portão, seguidos de alguns policiais que se encontravam na residência. Ele não esperava por uma recepção tão calorosa assim, mas já que estava ali...

Noel ficou em silêncio diante das perguntas desconfiadas de todos. Notou os policiais com as mãos próximas às suas armas e os ignorou. Somente quando o pequeno garoto apareceu e caminhou até a mãe, segurando-a pelas saias, é que ele abriu um sorriso e fez menção em tirar o saco das costas (sim, era um grande saco). Nesse momento, policiais e seguranças já haviam sacado as armas.

Então Noel disse suas primeiras palavras, direcionadas ao garotinho de apenas sete anos, que olhava curioso para aquele homem, vestido como um médico, ou açougueiro, com suas roupas brancas manchadas de sangue por toda parte:

― Aqui está garotinho... Um presente de Natal especial para você. Espero que aprenda a não ser tão filho da puta quanto ele. - abriu o saco e derrubou seu conteúdo diante do portão - Divirta-se com os pedacinhos de seu papai querido.

Noel, homem comum que não morava na Lapônia, nem tinha habilitação para conduzir trenós puxados por renas, virou-se dirigindo-se ao carro e ignorando os avisos dos policiais. As costas da camisa branca ganharam tons mais vivos de vermelho.

Caído na grama diante da casa, um corpo e as cores do Natal: branco, vermelho e verde. Nas mãos do garotinho, um braço direito enfeitado com um laço dourado.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Presente de natal

Já era tarde da noite e o pequeno Martin teimava em ficar acordado. Seus olhos faziam um esforço tremendo para não se fechar; não deixaria passar mais um natal sem ver o Papai Noel com os próprios olhos. Precisava acreditar.
Olhava fixamente para a lareira que apagara. Não queria queimar o Papai Noel. O relógio na parede soou meia noite; os olhos do garoto se arregalaram. Se o bom velhinho não chegasse logo, Martin dormiria ali mesmo.
Um suave ruído despertou de vez o garoto. Algo estava no telhado de sua casa. Sem dúvida seriam as renas encantadas. Martin se escondeu atrás do sofá; pois não queria assustar ou surpreender o Papai Noel, queria apenas vê-lo, queria crer.
Um ruído áspero percorreu a lareira. Ele estava descendo. O garoto estava com um sorriso no rosto, mas este fora substituído por uma terrível expressão de preocupação quando o Papai Noel escorregou e caiu. Foi uma queda abafada, sem ruídos. A poeira subiu e impediu que o garoto enxergasse qualquer coisa.
Hesitou, temeu por algo ruim ter acontecido, mas logo notou que o Papai Noel estava se levantando. Ainda não era possível vê-lo, mas resolveu se aproximar, mostrar-se e oferecer ajuda.
Já estava a poucos passos da lareira, quando um sutil brilho surgiu de dentro da escuridão da lareira. Martin não conseguiu identificar o que era, mas podia arriscar que era um par de olhos.
- Pa-Papai Noel? – Sua voz saiu fraca.
- Feliz natal, Martin! – O par de olhos se estreitou. A voz era como o sussurro de um rugido.
Instintivamente o garoto recuou, mas os olhos ainda o fitavam. Estreitavam-se. E assim que saíram da lareira, surgiu um grande corpo curvado. Notou que uma roupa vermelha cobria a pele pegajosa.
Assim que a pouca claridade da janela iluminou, Martin pode ver uma grande boca, cheia de dentes afiados, saltar sobre seu pequeno corpo. O peso do Papai Noel não o incomodou por muito tempo, pois em instantes sua vida já fora tomada.
Naquele natal, Martin conheceu o Papai-Noel, e o seu presente foi a morte.
Conto escrito em Dezembro de 2003. Foi minha primeira publicação impressa. Esse conto esteve presente no Jornal da Praça nº 19, que circulava na Praça Benedito Calixto - Zona Oeste de SP.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

...e em vosso leito de morte eu vos concedo um vislumbre do natal

Já sentada à mesa (minha mente dispara em devaneios), sinto o aroma do frango assado e molho agridoce a pairar como uma nuvem, meus braços erguidos, apoiados sobre os cotovelos à espera das fartas travessas recheadas de alimentos, meu espírito borbulha nas panelas de meu estômago a ferver, ebulir e elevar os vapores dos espírito natalino para todos os poros do meu corpo, pelas minha veias, desaguando enfim em estrelas cintilantes na retina de meus olhos, através dos quais eu observo o natal desenrolar-se a minha volta como que dotado de vontade própria, e no ambiente (já não sei se é o brilho dos meus olhos) tudo fulgura, a luz dilata sutilmente em halos como se pulsasse feito um coração, bombeando na sala fluxos de serenidade mesclados com a ansiedade típica do momento derradeiro que precede a ceia de natal. À deriva nesse rio de reminiscências a pipocar atrás de minhas pálpebras, eu flutuando me sinto enuviada, um tanto tonta, sinto que só seria preciso um passo para desabar toda a estrutura mística e celeste daquela sala de jantar, ruiria comigo todo esse templo erguido em volta da árvore de natal, e então eu permaneço imóvel como uma escultura, um ode à inocência. E perdida nesses devaneios, sou levada (sempre à deriva) a virar um pouco a cabeça para o lado e, ainda fruindo o aroma da comida que agora eu juro! emana das paredes, só pode!, vejo, imponente em seu cume, a estrela de Belém, fincada no mais alto ponto da nossa árvore de tantas luzes e adornos brilhantes e coloridos a cercarem-lhe os galhos; a estrela também a emanar luz luz luz, e naquele momento me sinto como teria se sentido o espírito dos Reis Magos, a fervilhar diante do anúncio do nascimento do Rei dos Reis, incumbidos com o honroso dever de serem os primeiros a presenciar tamanho acontecimento; e nem o corrompimento do próprio menino que nasceu sob tal estrela, nem seus ensinamentos, nem o declínio do Natal podiam me arrancar de meu transe, só se destruíssem o firmamento!, pois, não duvido, só pode ser de lá que vêm tão maravilhosos odores. Ali, com minhas pequeninas e delicadas mãos de outrora, agarradas, grudadas, entrelaçadas de tanta excitação àqueles talheres, fitando a árvore brilhante coroada com a estrela-mãe, pude ver num fulgaz vislumbre o céu divinamente estrelado a banhar de uma luz prateada a imensidão de árvores da floresta que cerca o celeiro, de onde teve início tudo aquilo que, séculos depois, desaguaria na minha sala de jantar. Quando meu espírito chegou a tal ponto de efervescência que tive a impressão que se respirasse uma grama de ar eu explodiria, eis que toda a sala de jantar desaparece, a árvore devanesce e evapora, não lentamente, mas de modo grosseiro, alguém violentamente arranca todo o meu cenário, cagaram no meu rio de odores, e a tenra textura da pele de minhas mãozinhas dão lugar à sinuosas e decrépitas rugas a segurar um cigarro fedido; e diante de um espelho e através de olhos que não mais cintilam vejo uma velha horrorosa cuja tez antes tão cheia de luz hoje corroída pelo tempo aos poucos vai tombando no chão.

domingo, dezembro 20, 2009

Claus dos infernos

De que adianta
a ceia farta
se na rua
tem gente parca?

De que adianta
presente
se na rua
a presença é invisível?

De que adianta
um só bom velhinho
se na rua
temos vários?

De que adianta
esse espírito
se na rua
não existe alma?

Responda-se.