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quinta-feira, outubro 14, 2010

Gatos no forro

As batidas de suas patas o denunciavam. Era ele novamente. Aquele gato desgraçado em nosso forro. Como aquilo incomodava! Arranhava, corria, e me deixava nervoso. Aquela casa de madeira estava caindo e o que faltava era apenas um gato sobre nossas cabeças.
Abrimos o forro, aquela tampa velha e cheia de cupim que por muito tempo descansava inerte e criava centenas de teias de aranha. E naquele imenso negrume profundo surgiu sua face. Branca imunda e felpuda. Um felino asqueroso e tenebroso! Ao ver-nos arreganhou as presas e miou bravo! E no segundo seguinte, pulou sobre nossas cabeças. E no terceiro segundo, sumiu.
Nefeshy, a nossa pintcher, saiu em disparada atrás daquele demônio, e logo apareceu um outro gato, mais comportado lá em cima. Enquanto o outro pulava, a cachorra ia atrás do bicho, lá pro fundo da casa, até que o alcançou e eu só ouvi o barulho de carne rasgando, um último miado, e o silêncio.
Você pegou o que sobrou, e jogou fora.
Felizmente, o feitiço foi cortado pela raiz, antes que a gata desse filhotes.

terça-feira, março 02, 2010

Sonhos

O meu cabelo é sacudido fortemente pelo vento, minha pele fica esticada e meus olhos mal conseguem ficar abertos. Eu não senti medo quando pulei, e em nenhum momento me arrependi de ter pulado. Não acredito que exista alguém nesse mundo que não queira fazer o que eu estou fazendo. No mundo da escuridão, no mundo dos sonhos, nós somos aquilo que nós queremos ser. Não há motivo para ter medo ou arrependimentos. Tudo estará acabado, em breve.
A sensação de liberdade é muito melhor do que eu poderia ter imaginado. Se soubesse disso antes, eu não teria demorado tanto para pular. Nem sempre temos condições de controlar os nossos sonhos, mas quando nos damos conta disso, temos que aproveitar. É preciso ousar, abusar, arriscar. O tempo é curto e a qualquer momento aquele maldito despertador pode tocar e te levar para longe daqui; levar a um mundo onde pular e se atirar não se pode fazer duas vezes.
Aproveito minha chance, aproveito para sentir o vento no meu rosto, a adrenalina sendo produzida em grande escala e sendo carregada por todo o meu corpo. Essa sensação é de excitação total! Não há nada melhor do que isso. O medo existe, mas ele é facilmente vencido. O prazer é maior! Sinto o vento cortando meu rosto, minhas roupas a ponto de rasgar. Eu estou voando e essa sensação é maravilhosa.
O despertador não vai tocar, mas tenho certeza que em breve meu sonho irá acabar. Já consigo avistar o chão e mesmo estando caindo numa velocidade da qual nem mesmo posso imaginar, ele não vêm tão rápido quanto imaginei. Ainda tenho certo tempo, e nesse pouco espaço de tempo, o sorriso se alarga em meu rosto. Essa sensação vai acabar e vou levantar assustado na minha cama. Será que vai haver tempo para mais um sonho como esse? Não teria coisa melhor...
O chão se aproxima, e dessa vez ele está mais rápido. O tempo está acabando. Penso em fechar os meus olhos, mas não... Vou mantê-los abertos até o final. O fim se aproxima e ao chegar eu não sinto muita coisa. Tudo isso ocorre num ínfimo espaço de tempo. Ouço o baque surdo do meu corpo atingindo o chão com violência, ouço o sutil som que sai de minha própria garganta, sinto uma suave e incômoda dor percorrendo pelo meu corpo, vejo o mundo diante de meus olhos escurecer; e antes de perder toda a minha consciência eu consigo pensar: Isso não era um sonho!

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Noite de Festa

Eu e minhas tias estávamos na sala, daquele décimo sei lá qual andar. As crianças pequenas, todos primos, brincavam correndo pelo apartamento. Minhas tias conversavam. Mas eu nem conversava, muito menos corria com meus primos. Era como um observador.

Observava as tias conversando apenas e não percebi o sumiço das crianças. A menina de uns 3 anos e o menino de 2 anos no máximo. Eles reapareceram, porém lá na esquina, olhando-se da janela. Minha espinha gelou. Era de noite, e as ruas vazias gradeadas por prédios antigos e sombrios davam um ar de terror. Gritei e apontei para as crianças e minhas tias não ouviam. Não queriam me dar atenção.

Até que outra tia me ouviu, e sem muito se importar desceu para buscá-las. Mas enquanto pegava na mão do menino e o punha no colo, uma moto parou na frente e pegou a menina. Fugiu. Por um momento não sabia o que fazer. Até que decidi ir atrás. Corri e acompanhei o percurso da moto que não parou longe. Eu gritei por todo o caminho, cansado e com medo.

Até que chegamos a um pátio de fábrica onde uma gangue fazia uma volta e me esperavam. Pedi a criança e eles não deram. Mas não lembro como, me joguei para cima deles e bati até pegar a menina e correr dali. Corri muito e eles me perseguiram.

* * *

Estava no mesmo apartamento, agora apenas as crianças. Quando meus pais chegaram, juntamente com os casais de tios. Parecia-me ser natal, mas nenhum deles tinha cara boa. Cada casal foi para um quarto, e nós ficamos na sala nos olhando e pensando o que havia acontecido. Até que decidi ir ter com meus pais. Eles estavam cada um num lado do quarto de rostos sérios.

- O que houve? – Perguntei.

Responderam que não houve nada, secamente.

- Mas vocês estão bem um com o outro? – Insisti.

Eles se olharam, e em seguida minha mãe olhou para o chão e disse:

- Vá com seus primos. Depois conversamos.

Voltei para a sala, e devo ter acordado.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

De quando você pisou no acelerador

Não me pergunte onde era!

Mas você morava naquele lugar estranho. Uma casa cheia de portas e escadas para cima e para baixo. E a porta de entrada dava direto para a rua. E a rua era de paralelepípedos. Para se chegar ao seu quarto tinha de se passar por diversos corredores, subidas e descidas. O piso era de madeira antiga e as paredes de pintura descascando.

Naquele dia você entrou apressado e eu te segui. Percorremos a casa até o seu quarto. Você entrou e pediu que escondesse a porta com uma estante de livros. Enquanto você fazia não sei o que dentro do quarto, me ocupei de puxar a estante para tapar a porta.

* * *


Você saiu apressado. Eu corria atrás. Você dizia que não tínhamos tempo, que era pra eu ir rápido. Abriu a porta da rua e lá fora conversando estavam três pessoas estranhas que moravam com você. Um de azul, outro de branco, e o outro de branco e dourado. Passamos por eles como se não existissem.

O jipe antigo nos aguardava. No banco de trás estavam meu tio, meu primo e minha avó. Entramos e sentamos, e você já acelerou.

A chuva estava forte e você acelerava mais e mais. E eu pedia pra ir mais devagar. Por nada você tirava o pé do acelerador.

Acidentes aconteciam pelo caminho, e você desviava. Era motos, carros e caminhões. A rodovia estava pelo avesso. Então houve um momento que me abaixei, fechei os olhos e senti que o carro girava na pista. Iria capotar. Gritei para todos se segurarem.


* * *


Quando acordei você estava tratando de meus ferimentos. Na própria estrada, mas não chovia mais. Estavam de pé você, meu tio e meu primo e queriam seguir em frente, para onde várias pessoas seguiam, em meio a carros tombados e amassados, era para onde a estrada levava. Eu perguntei de minha avó. Disseram-me que estava para trás e eu fui procurá-la. Fiquei com medo que a tivesse perdido, mas ela estava lá. Dentro de um aquário com outros peixinhos dourados, era ela nadando viva!