sexta-feira, março 12, 2010

CONFIANÇA

Qual foi a última vez que você fechou os olhos e deixou alguém te guiar?

Costumava fazer isto quando criança. Geralmente, a pessoa que me guiava era minha irmã mais velha. Brincávamos de “confiança”. Eu fechava os olhos sem medo porque sabia que ela não me levaria a nenhum lugar que eu não fosse amar. Eu tinha a certeza absoluta que ela só queria minha felicidade.

Quando andava de mãos dadas com minha mãe ou meu pai, eu brincava sozinha, mesmo. Fechava os olhinhos e saía a andar. Só às vezes pedia para ir com menos pressa e eles se zangavam: - Abre os olhos, menina! Brinca depois que estamos com pressa.

Posso contar nos dedos o número de pessoas que me deixei levar pelas mãos através da brincadeira “confiança”.
Depois da minha irmã mais velha e dos meus pais, vivi experiência parecida com meu primeiro namorado. Andava sempre de mãos dadas e, como um teste quase misterioso, fechava os olhos e me deixava levar por ele. Eu precisava saber se eu confiava mesmo, já que ele vivia dizer o contrário. E eu confiava. E era bom confiar.

Me lembrando desta brincadeira, recordei o quanto é bom ter em quem confiar. Ainda confio nestas pessoas citadas acima, embora o último não seja mais namorado. Mas, certamente, daria minhas mãos de olhos fechados a cada um deles por saber que só querem meu bem.

E, lembrando desta história, questionei também o motivo de ter tanto tempo que eu não fecho meus olhos e não entrego minhas mãos.
Ai, esta casca, este manto, esta farda de segurança tão frágil e tudo em vão.

Quero brincar de “confiança”. Mesmo que para isto tenha que voltar a ser criança.

domingo, março 07, 2010

Leveza do grito


Amargo é o gosto
no canto do rosto
em relva molhada

tormento sereno
prepara o terreno
com raios de sol

sob impulso
corto meu pulso
de sangue estático

inerte à dama
friamente me chama
com o corpo sangrado

do outro plano
finjo e engano
o silêncio dissimulado.

sexta-feira, março 05, 2010

PONTO FINAL

Estas são nossas últimas linhas.
Chegamos ao fim, sem caminho, sem saída, sem partida.
Apenas o fim doloroso que provaca estas três letras.
Tão farta da mesmice deste dilacerar sem êxito, parei na esquina que cruzam nossos olhares de adeus.
Tão cansada destas mesmas linhas de amor, findo aqui esta história que, até então, não conhecia ponto final.
Toda a tolice de seguir até encontrar tuas mãos e toda esta história de amor eterno, morre sem o sustento da ilusão que não mais alimento.

Morre hoje o que nascia e renascia no calor dos teus braços.

Desta vez, o amanhã já é muito tarde.
Tenho pressa. Tenho sede. Tenho fome. E não tenho medo.
Respiro teus passos no ontem que, por enquanto, é vivo.
Ao hoje resta a dor.
Vou retalhando e sangrando meu peito até não que não reste mais nenhuma gota tua.
Enfim, sou dona de um ponto final.
Começo nova história com o coração ferido, porém, livre.

A minha alma já pode voar novos céus.
Teu azul não mais é meu desejo sublime.
Tuas nuvens tão densas de mistérios,
choveram minhas lágrimas sobre as flores. Espinhos não florescem.
Não tenho mais nada de ti.
Talvez, as lembranças.
Tenho ainda a história que, hoje, mesmo com dor, termino.
Chegou meu ponto final!

quinta-feira, março 04, 2010

Humanidade

Quão complexo e quão simples é o ser humano!
Tão humano demasiado humano!
Tanto mais inocente,
Tão inconsciente!

Belo animal sapiente,
Que como tal, se comporta.
Em si mesmo não se conforta,
Este ser tão inconstante.

Não sabe o que quer,
Não sabe o que faz,
Talvez porque:
Saiba demais!

quarta-feira, março 03, 2010

Sombras de um adeus mal ensaiado

Despede-se um amor
Choro sorrisos embargados
As lágrimas de ontem voltam para o adeus
As lágrimas de hoje secam, proibidas de ser

Despede-se um sonho bom
Afogo mágoas embrulhadas
Uma caixinha de lembranças amassadas
Os papéis rasgados, soltos no vazio de uma briga

Despede-se o beijo macio
Machuco as bocas de um perfeito encaixe
Fotografias de abraços ternos/eternos
As imagens distorcidas, imploradas... por quê?

Despede-se o sexo loucura
Gozo lembranças e respirações ofegantes
O cheiro dos corpos em suor combinado
As mãos que entrelaçaram, não se aplaudem mais

Despede-se a paixão já morta
Envergonho-me das frustradas insistências
As desculpas e perdões molhados
As farpas que dialogaram, caladas no adeus da estupidez

Despede-se a amizade antes eterna
Corto pedaços de promessas cantadas
As palavras cuspidas em momentos impensados
As barreiras do tempo e da distância, soterradas no olhar

Despede-se o último beijo
Visualizo as mãos que se tocaram suadas
As pontas dos dedos, pedindo para voltar
O amor mutante, pedindo agora o desprezo do sentir

Despede-se a tristeza de te ver
Sorrio a liberdade do coração acorrentado
As portas se abrindo, tirando a poeira
As asas brancas, pedindo novos sorrisos

Sombras de um adeus...
Muito mal ensaiado

terça-feira, março 02, 2010

Sonhos

O meu cabelo é sacudido fortemente pelo vento, minha pele fica esticada e meus olhos mal conseguem ficar abertos. Eu não senti medo quando pulei, e em nenhum momento me arrependi de ter pulado. Não acredito que exista alguém nesse mundo que não queira fazer o que eu estou fazendo. No mundo da escuridão, no mundo dos sonhos, nós somos aquilo que nós queremos ser. Não há motivo para ter medo ou arrependimentos. Tudo estará acabado, em breve.
A sensação de liberdade é muito melhor do que eu poderia ter imaginado. Se soubesse disso antes, eu não teria demorado tanto para pular. Nem sempre temos condições de controlar os nossos sonhos, mas quando nos damos conta disso, temos que aproveitar. É preciso ousar, abusar, arriscar. O tempo é curto e a qualquer momento aquele maldito despertador pode tocar e te levar para longe daqui; levar a um mundo onde pular e se atirar não se pode fazer duas vezes.
Aproveito minha chance, aproveito para sentir o vento no meu rosto, a adrenalina sendo produzida em grande escala e sendo carregada por todo o meu corpo. Essa sensação é de excitação total! Não há nada melhor do que isso. O medo existe, mas ele é facilmente vencido. O prazer é maior! Sinto o vento cortando meu rosto, minhas roupas a ponto de rasgar. Eu estou voando e essa sensação é maravilhosa.
O despertador não vai tocar, mas tenho certeza que em breve meu sonho irá acabar. Já consigo avistar o chão e mesmo estando caindo numa velocidade da qual nem mesmo posso imaginar, ele não vêm tão rápido quanto imaginei. Ainda tenho certo tempo, e nesse pouco espaço de tempo, o sorriso se alarga em meu rosto. Essa sensação vai acabar e vou levantar assustado na minha cama. Será que vai haver tempo para mais um sonho como esse? Não teria coisa melhor...
O chão se aproxima, e dessa vez ele está mais rápido. O tempo está acabando. Penso em fechar os meus olhos, mas não... Vou mantê-los abertos até o final. O fim se aproxima e ao chegar eu não sinto muita coisa. Tudo isso ocorre num ínfimo espaço de tempo. Ouço o baque surdo do meu corpo atingindo o chão com violência, ouço o sutil som que sai de minha própria garganta, sinto uma suave e incômoda dor percorrendo pelo meu corpo, vejo o mundo diante de meus olhos escurecer; e antes de perder toda a minha consciência eu consigo pensar: Isso não era um sonho!

segunda-feira, março 01, 2010

Devora-me ou te decifro

Não via mais nada, não ouvia coisa alguma. As palavras da professora nada eram senão ruídos perdidos no vazio daquela sala. Ouvia somente o seu ranger do queixo, contorcer da boca. Ouvia também o salivar da língua, que me fazia pensar em dedos úmidos tamborilando entre pernas trêmulas.
A sala antes cheia era agora vazia e profunda, com as paredes opostas esticando-se num corredor gigantesco. Os alunos eram espectros assexuados. E pensei em como eles eram desatentos, e como ignoravam aquela figura que parecia dançar, nesse palco improvisado. A música ressoava por meus membros, e meus músculos e meu sangue enrijeciam-se.
Agora só precisava atentar em ambos os sentidos; direcionar o cérebro e as pernas para dançarina à frente. Ao seu rosto, especificamente. Vinha-me a mente, com urgência, que eu precisava imediatamente controlar o ímpeto que subia-me o corpo, tremia-me a espinha, agitava o sangue. Eu agora movimentava as pernas, inquietas, que tremulavam tentando inutilmente se sobreporem ao membro que ali nascia, filho do desejo.
Minhas mãos, como se tomadas por vida própria, ansiavam por acariciar sua mais nova cria. Eu suava frio, temendo que os espectros que tenebrosamente adornavam a sala notassem tão incontrolável agitação. Esses imbecís! Desprovidos de visão, julgavam ordinária a luz que ela emanava. Não sabiam aproveitá-la.

Os ruídos vindo daquele rosto eram ensurdecedores. Não restava-me alternativa, já era prisioneiro dos caprichos de seus olhares. Pois eu sabia que escondia por trás de suas expressões distantes de educadora, de seu olhar vago, de suas mãos bêbadas, sabia que por trás de todo esse teatro ela fitava-me e me dilacerava, a começar pelos olhos, seguido do peito inflado, minhas pernas epilépticas, e logo não era mais educadora. Logo, ela sabia de tudo. Sabia que eu a degradava, a lançava em todas as posições pelos cantos da sala, que a humilhava, e ela só sorria. Descobriu meus desejos mais depravados, fazia cara de quem finge que não gosta, mas delira de prazer. Não só sabia lidar com todas as minhas vergonhas e frustrações e medos como me livrava de todos eles, enquanto cedia às minhas mais doentias fantasias. O resto da sala assistia com inveja explodirmos ali mesmo. Ela vinha beijar-me a face, eu a empurrava, às vezes simulando violência, as vezes sem simulacão. Ela pegava meu rijo membro tenramente, eu abria sua boca com os dedos trêmulos e quando estava prestes a colocá-lo lá, eu empurrava brutalmente para dentro, sem esperá-la, sem controle, e com a mão nas costas de sua cabeça, eu controlava os movimentos de vai-e-vem que ela deveria fazer por si só. Ela engasgava, eu não ligava. Quando num lapso me vinha um sentimento de remorso em meu rosto, ela só fazia sorrir. Sim, ela entendia o jogo. E ela ainda desprezava as caras enojadas que todas as outras fizeram comigo em épocas anteriores, após egoistamente despejarem sobre mim seus líquidos em espasmos abafados.
Ela, agora, jogada num canto, suada. Ofegava levemente, seu corpo coberto por diversos fluídos. Humilhada, então pensei que estava prestes a gritar, a enojar-se. E antevi meu corpo antecipar-se numa defesa inconsciente. Mas ela somente sorriu. Levou as costas da mão à boca e eu, deitado, morto, sem força alguma, tive minha visão coberta por seu rosto. E ela tampou meus olhos e beijou-me na boca, no peito e por entre as pernas. Ainda com uma mão me acariciando e a outra sobre minhas pálpebras, sussurrou algo em meus ouvidos, mas tudo que senti foi a leve brisa de suas palavras, suaves, como se vindas da praia ao entardecer, e como tal deixou-me sonolento. Quando dei por mim, ela havia desaparecido, só restando a mulher que não fazia distinção entre os alunos.

Terei agora de viver em meio a esses espectros, essas conchas preenchidas somente por ar, a fitarem o palco feito bonecos sem sangue? A solidão nessa caverna é aterradora. À frente, a representar o papel de educadora, era como se eu assistisse a um um teatro macabro. Olha-se para a platéia e ela não existe. Somente eu em meio a um deserto de cadeiras vazias, a fitar o espetáculo, proferindo berros gulturais silenciosos, que ensurdeciam o mais surdo dos humanos – eu!
Não havia mais sinais ou brechas em sua face que eu pudesse desvendar.
Mas, tudo bem. Ela é meticulosa. Calculista.
Já havia me enganado antes.