segunda-feira, novembro 16, 2009

O primeiro labirinto

Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto. Nessas paredes ressoa um som que nem sei bem se é um som. O ar está dilatado e denso, seu peso me esmaga e comprime minha alma já escoriada. Socorro, socorro!, eu puxo o grito direto de minhas entranhas, mesmo já sabendo da inutilidade e do perigo de se provocar ainda mais o tenebroso silêncio que rege o ar daqui. Mas, se silêncio, que grito é esse que tão nitidamente ouço? Um berro pavoroso que sinto atingir-me por todos os lados, que me cerca e que não posso definir se vem de fora ou de dentro.

Dizem que no centro do labirinto há um minotauro. Será ele?
Tateando às cegas e surdas e com o ar pesando as têmporas, arrisco o primeiro passo, que pareço dar sobre areia movediça. Adiante, vejo uma esquina. Será a saída? Será a entrada? Num acesso extremo de medo e temor, evoco forças não sei de onde e decido por correr, correr como nunca e avanço as esquinas do labirinto uma após a outra, sem me preocupar com que paredes possa vir a encontrar. Ouço passos atrás de mim mas não posso arriscar um olhar, não sei se aguentaria fitar diretamente os olhos daquilo que me persegue, como se em minha posse houvesse algum segredo ou tesouro de tempos ancestrais.

(Cedo ou tarde me cansarei e serei devorada. Ele começará por minhas pernas e irá subindo, aos poucos, calmamente, saboreando entre seus dentes cada pequeníssima região, ao mesmo tempo em que descansa da perseguição. Continuará escalando o meu corpo, como se galgando as dificuldades e sorvendo cada segundo de expectativa que oferecem o longo tronco e os galhos de uma árvore, para enfim conquistar o fruto que na copa aguarda convidativo.)

E o pensamento me toma de assalto: que medo é esse? Se, ao olhar para trás, deparar-me com um minotauro, que poderia eu fazer? Portanto, tudo que ainda sustenta esse medo não é nada além do próprio medo. Pois que seja minotauro ou monstro qualquer que me persiga, eliminarei meu medo antes que você o faça! Não há nada atrás de mim que possa ser pior do que eu–-

Suada na cama. Levanto-me de supetão e olhando para cima percebo a menina me fitando do teto, ensopada, acabada, a boca em horroroso O, o peito arfando. Deitada entre lençóis sujos e roupas rasgadas, ao seu lado há um corpo horroroso, dormindo um sono recente, satisfeito, embriagado dum prazer rápido e egoísta; seu membro jaz feito haste de flor. Nem pôde finalizar o grito, essa pobre menina; sua fuga foi cortada ao meio e há sangue na cama, muito sangue. Com seu corpo exaurido e sua alma suspensa, ela torna a se deitar, retomar sua busca vã de um sono impossível, já temendo andentrar, sem nem se dar conta, em novos labirintos; no entanto, nada se pode fazer, pois o sono já envereda por caminhos ocultos da cama; e em meio a pétalas de rosas defloradas ela dorme como se cercada por estranhas paredes.

6 comentários:

  1. Uau!!
    Viagem total...rs
    ó qui...O medo prolifera inspiração mesmo né? rs
    Boa Leo!

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  2. Maravilhoso texto. Invoquemos o medo sempre, pois é dele que vem as melhores letras.

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  3. Ehh, mandou bem xará!! Belo texto heim!!!

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  4. Uau!! Não posso ficar mais de um dia sem vir aqui.

    Confesso que eu até pensei que fosse texto do outro Lèo!! rs

    Oôoo pova "bão, gente!! Parabéns!

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