segunda-feira, dezembro 21, 2009

...e em vosso leito de morte eu vos concedo um vislumbre do natal

Já sentada à mesa (minha mente dispara em devaneios), sinto o aroma do frango assado e molho agridoce a pairar como uma nuvem, meus braços erguidos, apoiados sobre os cotovelos à espera das fartas travessas recheadas de alimentos, meu espírito borbulha nas panelas de meu estômago a ferver, ebulir e elevar os vapores dos espírito natalino para todos os poros do meu corpo, pelas minha veias, desaguando enfim em estrelas cintilantes na retina de meus olhos, através dos quais eu observo o natal desenrolar-se a minha volta como que dotado de vontade própria, e no ambiente (já não sei se é o brilho dos meus olhos) tudo fulgura, a luz dilata sutilmente em halos como se pulsasse feito um coração, bombeando na sala fluxos de serenidade mesclados com a ansiedade típica do momento derradeiro que precede a ceia de natal. À deriva nesse rio de reminiscências a pipocar atrás de minhas pálpebras, eu flutuando me sinto enuviada, um tanto tonta, sinto que só seria preciso um passo para desabar toda a estrutura mística e celeste daquela sala de jantar, ruiria comigo todo esse templo erguido em volta da árvore de natal, e então eu permaneço imóvel como uma escultura, um ode à inocência. E perdida nesses devaneios, sou levada (sempre à deriva) a virar um pouco a cabeça para o lado e, ainda fruindo o aroma da comida que agora eu juro! emana das paredes, só pode!, vejo, imponente em seu cume, a estrela de Belém, fincada no mais alto ponto da nossa árvore de tantas luzes e adornos brilhantes e coloridos a cercarem-lhe os galhos; a estrela também a emanar luz luz luz, e naquele momento me sinto como teria se sentido o espírito dos Reis Magos, a fervilhar diante do anúncio do nascimento do Rei dos Reis, incumbidos com o honroso dever de serem os primeiros a presenciar tamanho acontecimento; e nem o corrompimento do próprio menino que nasceu sob tal estrela, nem seus ensinamentos, nem o declínio do Natal podiam me arrancar de meu transe, só se destruíssem o firmamento!, pois, não duvido, só pode ser de lá que vêm tão maravilhosos odores. Ali, com minhas pequeninas e delicadas mãos de outrora, agarradas, grudadas, entrelaçadas de tanta excitação àqueles talheres, fitando a árvore brilhante coroada com a estrela-mãe, pude ver num fulgaz vislumbre o céu divinamente estrelado a banhar de uma luz prateada a imensidão de árvores da floresta que cerca o celeiro, de onde teve início tudo aquilo que, séculos depois, desaguaria na minha sala de jantar. Quando meu espírito chegou a tal ponto de efervescência que tive a impressão que se respirasse uma grama de ar eu explodiria, eis que toda a sala de jantar desaparece, a árvore devanesce e evapora, não lentamente, mas de modo grosseiro, alguém violentamente arranca todo o meu cenário, cagaram no meu rio de odores, e a tenra textura da pele de minhas mãozinhas dão lugar à sinuosas e decrépitas rugas a segurar um cigarro fedido; e diante de um espelho e através de olhos que não mais cintilam vejo uma velha horrorosa cuja tez antes tão cheia de luz hoje corroída pelo tempo aos poucos vai tombando no chão.

Um comentário:

  1. Ae xará, mandou bem nesse final!!!
    Lembrei-me de Dorian Gray! hehee!

    Abraços, £!

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