terça-feira, dezembro 28, 2010
Serafim
Chego mais próximo. De uma baixa sacada, espreito... Olho e sinto. Eles não podem me ver. Uma intensidade de luz incomum ao redor de um corpo, um tom de pele cobre inexistente para eles, um par de asas atrás das costas e uma brilhante espada. Tamanha imponência e beleza, mas mesmo assim, os pobres olhos não enxergam.
Olhos sem fé, sem pureza; jamais me enxergarão. Jamais!
Há tempos atrás, seria uma loucura o que faço agora. Cometeria o caos, pois muitos me enxergariam. A fé e a paz existiam naquela época; e nelas, o homem acreditava. Por isso, o surgimento de um anjo poderia trazer imensa confusão.
Mas hoje, eu não temo. Infelizmente a fé acabou. Os anjos não mais usam espadas, nem mesmo caçam os demônios. A fé realmente acabou.
Caminho nas ruas e tento sentir o que eles sentem. É estranho pensar que um anjo, entre os homens, caminha. Vejo crianças. Elas se divertem e nada tiraria a atenção delas. A não ser... eu?
Uma criança me observa; olha em meus olhos. Não compreendo. Como ela pode me ver? Ela se aproxima e ignora o jogo. Sem medo ou desconfiança, estende a mão para mim.
- Quer jogar bola moço?
Incapaz de responder, vacilo. Seus olhos insistem e sua mão permanece estendida. Ela me observa e me tira do transe.
- Moço, pra que essa espada?
Continuo calado, inexpressivo... Mas ela realmente estava lá.
- Essas asas são de verdade? Pra que essa corneta?
Por fim, acordo. Abaixo-me e sorrio para ele.
- O que vê em mim? Com o que pareço?
Sua inocente voz descreve:
- Um moço bronzeado. Com armadura, corneta, espada e asas. São de verdade?
- E em meus olhos? O que vê neles?
Meio assustado ele observa.
- Luz. Eu só vejo luz. Que jogar bola moço?Levanto-me feliz e afirmo: - Sim, são asas de verdade! A armadura é para a minha proteção e a espada será a sua proteção. Se minha espada falhar, com a corneta irei chamar por anjos. E com eles, espadas irão te proteger.
- Você é um anjo?
- Mais do que isso, sou um serafim.
- E você quer jogar bola, Serafim?
- Obrigado. Mas irei torcer por você.
O garoto voltou feliz ao jogo. Um serafim ele tinha visto, mesmo sem saber ao certo o que é um serafim. E foi assim que ele voltou, cheio de orgulho e repleto de paz.
Guerreiro, general, serafim. Um dos mais poderosos anjos do reino dos céus. Criaturas de força e fé indiscutíveis.
Desembainhei minha espada e senti revigoração. A luz de meu corpo se intensificou e o som angelical da corneta soou. A fé e a esperança ainda existiam, em poucos, mas estava lá. Ainda havia um motivo, uma razão, para continuar lutando.
Muitos demônios irão perecer! - Pensei. - E jamais irei descer aos humanos novamente. Pois trarei a fé e todos voltarão a me ver. Os anjos serão vistos e suas cornetas serão ouvidas. Jamais desistirei. Todos os demônios eu vou destruir. Pois a esperança eu vi e por ela vou lutar.
Aquele garoto cresceu e hoje escreve essa história. Essa que acabou de ler. Uma vaga lembrança do serafim foi o que lhe restou. Mas dentro dele existe a paz. A paz que alimenta a força. A força que existe em mim!
terça-feira, dezembro 21, 2010
Receita de fim de ano
e nem de menos.
Controle a temperatura,
rigorosamente.
Tempere a gosto,
o sabor é fundamental.
Tudo precisa de um sabor,
dê o seu toque pessoal.
Use as mãos,
e também os dedos.
Não deixe que outros
façam por você.
Esteja sempre de olho!
Não se arrisque e
coloque tudo a perder,
por falta de atenção.
Tenha paciência.
Saiba esperar.
Essa parte é, sem dúvida,
a mais difícil.
Saiba escolher
o acompanhamento.
Assim como fez
com os ingredientes.
Não coma
antes de agradecer.
Você não fez isso,
sem recursos.
E não coma
sozinho.
Não costuma cair bem.
Espere...
Nada melhor do que:
amigos.
Parentes.
Amores.
E durante a refeição,
Não se esqueça de um detalhe.
Sorria!
Fará toda a diferença.”
terça-feira, dezembro 14, 2010
Meu recomeço
Mas hoje precisa ser um dia diferente, pois é nisso que acredito. É para conquistar um novo passo na vida que acordo todos os dias, repleto de esperança e dedicação. Meu suor é dedicado a esse passo, minha cabeça lateja e a enxaqueca às vezes me faz desistir de tentar. Mas hoje não, pois hoje será um dia diferente.
Os preparativos de sempre são feitos, como se em um ritual. Fazemos os exercícios, alongamos nosso corpo e preparamos nossa cabeça pra aquilo que está por vir. Sabemos que após conquistar o primeiro passo, teremos muitos outros desafios pela frente, mas esse será o começo. Meu recomeço.
O chão é cuidadosamente preparado com um quebra cabeça acolchoado, como se fosse para receber crianças. Ao longo do trajeto – sim, mesmo sem eu ter conquistado nada, o trajeto é montado por completo –, os corrimões são fixados. Visto o meu melhor tênis, pois é com ele que pretendo seguir minha jornada. Religiosamente sou levado ao começo do percurso, e do lado de fora do corrimão, todos se aproximam para assistir. Enfermeiras, médicos, outros pacientes, mas para meus olhos, todos são meus amigos. Todos os dias fazemos isso uns pelos outros. Nós torcemos.
Chega o momento, aciono os freios da cadeira e o silêncio é a única coisa que habita o ambiente. Mesmo assim, posso ouvir o pensamento de muitos. As palavras, os votos de força e confiança. Todos torcem por mim. Todos nós torcemos para aquele que está aqui. Firmo minhas mãos nos apoios da cadeira e com um tremendo esforço consigo me erguer. A próxima etapa é a mais difícil e é onde eu sempre sou derrotado: o momento em que tiro as mãos do apoio da cadeira e tento me apoiar nos corrimões.
Mas hoje é um dia diferente e sei que vou conseguir. Sinto isso todos os dias. O suor escorre de minha testa e sob minhas axilas. Não é calor, é um suor gelado... Mas também não é medo.
Não sei explicar, mas é fruto de uma ansiedade que consome nosso corpo. Minha enfermeira fica bem próxima, mas ela sabe que não deve interferir. Somente quando eu cair ao chão é que ela deve partir para o meu socorro, antes disso, não.
Meus braços tremem, pois jogo sobre eles o peso do meu corpo. Lembro-me dos conselhos que ouço todos os dias. O peso deve ser jogado sobre minhas pernas, são elas que devem me sustentar. Faço isso, e elas tremem mais que meus braços. Divido o peso e preparo para concentrar a força em um dos lados, é o momento de tentar alcançar o corrimão. Meu braço esquerdo e minha perna esquerda são duramente exigidos, é sobre eles que lanço a carga de todo meu corpo. Agilmente solto o suporte da cadeira e lanço-me para o corrimão. Meu braço direito se flexiona, por pouco não cedo ao peso. Fazendo cachoeiras de suor escorrer do meu corpo e usando toda minha força, consigo me restabelecer.
Agora é o momento que costumo falhar – sou canhoto -; meu braço direito não consegue suportar o peso de todo meu corpo. Mas hoje, é um dia especial e sei que vou conseguir. Sinto isso, todos os dias, mesmo depois de falhar. Hoje, vai acontecer!
Ajeito o punho, asseguro-me que o corrimão está firme sob minha mão. Mais uma vez, lembro-me de colocar o peso sobre minhas pernas, são elas que devem me sustentar. Alivio meus braços, jogo meu corpo sobre o lado direito e avanço. Largo o apoio esquerdo da cadeira e me arremesso em busca do corrimão. Aquele momento parece eterno, mas foi a mesma fração de segundo de ontem. No momento em que vejo minha mão se aproximando do corrimão, no instante seguinte ele foge de mim. Meus dedos ficam longe, pois, assim como ontem, meu lado direito não foi capaz de sustentar o peso e cedeu. Meu corpo foi caindo para a direita e só me dei conta quando o baque chegou aos meus ouvidos. O rosto colado no chão macio, aquele ligeiro formigamento nos braços cansados e uma sutil dor no quadril.
A mesma história de ontem. A enfermeira veio ao meu auxilio, erguendo-me do chão. Fui colocado gentilmente na cadeira sob uma enxurrada de perguntas. Sim, eu estava bem, assim como ontem. Os mesmos conselhos, as mesmas palavras de confiança e força. Todos aplaudiram, como todos os dias. Como sempre fazemos diante do esforço e dedicação de cada paciente que se arrisca a dar um passo. O primeiro passo daquilo que será apenas o começo de tudo.
Deito a cabeça no travesseiro e, poucos instantes antes de cair no sono, sinto algo no peito. Sinto a mesma coisa que senti na noite passada... Sinto que amanhã será um dia diferente. Sinto que amanhã, darei o meu primeiro passo...
quinta-feira, dezembro 09, 2010
Rojão
- Não fui eu!
Gritava o torcedor após a partida ser interrompida por um rojão estourado dentro do campo. Todos em volta o acusavam, o time podia ser penalizado.
- Confessa, seu babaca! Olha a merda que deu!
- Tô dizendo cara! Não fui eu!
- Eu vi você jogando a bomba, seu animal! – Gritava outro torcedor peitando o acusado, enquanto a policia subia a arquibancada, eram mais de vinte deles.
- Você tá maluco! Viu o ...
E Vadinho foi puxado pelo colarinho e arrastado arquibancada abaixo até uma salinha a parte. O jogo pode continuar.
É, esse negócio de agressividade na torcida hoje já não funciona mais. Teu time leva punição, e quem perde no final é a torcida. Mas resta uma dúvida, o que é pior? Apanhar da própria torcida, ou dos policiais?
terça-feira, dezembro 07, 2010
Um sentimento estranho
Os mesmos semáforos abrindo, os mesmos semáforos fechando. E como todas as vezes, eu xingando pelo fato de ter que parar. As mesmas pessoas que, assim como eu, vivem a mesma rotina, saindo de suas respectivas garagens no exato momento em que eu passo, enfim... uma tremenda mesmice.
Mas eu não estou me queixando, pelo contrário. Gosto disso e os fatores que mudam essa paz no meu trajeto é que me preocupam. Assim como o fato que me ocorreu há alguns meses.
Eu estava dirigindo o meu carro. Fazendo o mesmo monótono percurso de sempre. Quando em um momento de distração, voltei minha atenção para o rádio. Um momento ínfimo, para não dizer nulo. Aquela fração de segundo onde sua vida pode mudar. Uma pessoa atravessou a rua no exato momento em que tirei os olhos dela. Não houve tempo para reações e o impacto foi extremamente violento. O homem foi acertado em cheio, mas ao invés de ter rolado por cima do carro, ele foi derrubado ao chão e as rodas – sim, as duas do lado direito – passaram por sobre seu corpo. Eu senti o solavanco, o impacto. Eu ouvi o barulho do choque, o gemido abafado do ar saindo de seus pulmões quando o carro passou sobre ele. Foi horrível.
Parei poucos metros à frente. Voltei desesperado, tentando inutilmente socorrer aquele homem. Mas ao vê-lo, tive a certeza de que era tarde demais. Seus olhos estavam opacos, fitando o nada; sangue escorria de seu nariz e essa era a parte mais apresentável dele. Seu tronco estava moído, parte de seus órgãos estavam fundidos com o asfalto, deixando um rastro de tecido e sangue por alguns metros. Alguns ossos da costela despontavam pela carne destroçada e não muito distante do seu corpo, um pedaço da coluna podia ser facilmente reconhecido. Seus braços estavam em uma posição desumana, e suas pernas... confesso que nem mesmo consegui identificar onde estavam...
Por outro lado, as minhas pernas tremiam. Meus olhos estavam marejados e minha cabeça só conseguia processar uma única coisa: “Eu matei um cara!”. Peguei o celular três vezes, e três foram as vezes em que o coloquei de volta no bolso. Eu precisava chamar a ambulância, a polícia, a funerária. Sei lá! Mas não tinha coragem. Passava o flash na minha cabeça, onde eu era condenado à prisão como um bandido qualquer, onde tudo o que aconteceu não passava de um acidente. Fiquei alguns segundos vivendo esse conflito mental, até o momento em que me dei conta de que a rua permanecia vazia. As rotinas não foram alteradas. Entrei no carro decidido e parti.
Passei parte do trajeto assustado, culpando-me de cometer um terrível crime. Culpando-me por ter fugido. Eu pensava repetidamente: “Eu matei um cara! Eu matei um cara! Eu matei um cara”. E foi pensando nisso, lembrando do seu corpo destroçado que, em dado momento, eu descobri o que realmente sentia. O sorriso estampou em meus lábios no momento que disse: Eu gostei!.
sábado, dezembro 04, 2010
Do que gosto...
E gosto do teu colo que afaga minha aflição.
Gosto de xícaras para tomar café.
E das tuas mãos dispostas a me fazer cafuné.
Gosto de rabiscos e traços.
Ainda mais, gosto do carinho dos seus abraços.
E gosto de um pouco de aventura,
Cachoeiras, mar aberto, até o deserto...
Gosto ainda mais de te ter por perto.
Gosto de algumas coisas,
Ou de tudo... um pouco.
Mas é de você que gosto tanto ou mais.
É seu meu encanto...
E é o seu amor que eu quero em paz.
quinta-feira, dezembro 02, 2010
Quem tem olhos e não vê
Coração não sente
O que se vê em frente
Se o ver por ver
For tão raso pra crer
Grande vazio!
Onde passa o rio.
Onde está a compreensão?
Assoreado ribeirão!
Onde está a compreensão?
terça-feira, novembro 30, 2010
Orfanato da Rua Wikkyborn
http://ilusionistasdoverbo.blogspot.com/2010/04/o-bizarro-acontecimento-na-rua.html
Orfanato da Rua Wikkyborn
As crianças eram tratadas com severidade e qualquer desrespeito ou mau comportamento era duramente repreendido. Porém, éramos crianças e era inevitável que ficássemos longe dos problemas, eles vinham até nós.
Quando algum garoto era pego fazendo algo de errado, ele levava broncas, às vezes palmatórias e por fim, passava parte do dia sem comer, trancado na sala de castigo.
A sala de castigo era temida, pois era o lugar mais estranho do orfanato. Havia algumas cadeiras de madeira e nenhum outro móvel. Não havia janelas e a única distração era observar um estranho quadro com um palhaço nada amistoso. Por ser o único adorno da sala, todas as crianças falavam do palhaço. Umas diziam que ele era assombrado, outras diziam que ele estava lá para nos observar e nos botar na linha, enfim, todas tinham uma coisa em comum em relação ao palhaço – medo.
Confesso que fui para aquela sala mais de uma vez. E confesso que a cada vez que entrei lá, tive a sensação de que o palhaço estava com suas feições mais duras e fechadas do que da última vez.
Certo dia, uma briga fez com que sete garotos fossem mandados para a sala do castigo, e eu era um deles. Ao entrarmos lá, ocupamos uma cadeira e começamos a falar do palhaço e da suspeita de que ele estava cada dia mais zangado. De fato estava.
Em um momento de distração, notamos que o olhar do palhaço estava inflamado e seu rosto tristonho havia se transformado em um sorriso vingativo de arrepiar os cabelos. Levantamos das cadeiras assustados, começamos a gritar por socorro, mas a porta estava trancada. Foi inocência nossa dar as costas para o temido quadro, ao olharmos de volta, nos demos conta de que a moldura estava vazia, e o palhaço estava de pé, diante de nós.
Os gritos foram substituídos por lágrimas, as quais foram inúteis. O palhaço pegou um garoto por vez. Uns foram mordidos na garganta e seus corpos largados no chão com convulsões e espasmos que antecederam a morte. Outros tiveram alguns membros quebrados antes de serem asfixiados pelas mãos cobertas por luvas. Enquanto o palhaço, com garras as quais eu não imaginei que existiam, dilacerava o penúltimo garoto, eu ajoelhei no chão implorando pelo seu perdão. Disse a ele que faria qualquer coisa que ele quisesse. Prometi nunca mais ofendê-lo. Após largar o garoto no chão com parte de suas entranhas para fora, ele se aproximou de mim com o sorriso desumano e olhos predatórios. Tive o corpo erguido do chão por uma única mão do palhaço e em seguida com a outra ele fez sinal de silêncio. Senti a força de sua mão apertando minha garganta a ponto do ar não mais chegar aos pulmões. Antes de perder a consciência, pude ouvir sua voz entrando em minha mente. Ele dizia que pouparia minha vida caso eu demonstrasse maior respeito aos quadros. Disse que eu deveria adornar minha casa com o maior número de quadros que fossem possíveis, tornando-me o maior colecionador do mundo. E foi ouvindo essas palavras que perdi a consciência.
Sou o Lorde Dorian Gray e fui considerado o maior colecionador de quadros do mundo. Aprendi a gostar e a respeitar os quadros a ponto de desejar que meu próximo quadro seja um auto-retrato.
quinta-feira, novembro 25, 2010
País das Maravilhas
Sinceramente, não sei de onde surgem as pessoas! Num momento você está abstraído no seu canto, ouvindo sua musiquinha no fone de ouvido, e no seguinte, aparece alguém que parece ter saído daqueles livros de fantasia estranhos. Ainda mais em ônibus. Acho que esses veículos abrem um portal com outro mundo quando chegam a certa velocidade transportando certa quantidade de massa. Mas isso é problema da física, o meu é como um ônibus pode se transformar num país das maravilhas ambulante!
Faltava pouco para a porta fechar, mas o motorista foi iluminado de esperar um segundo para que aquele personagem entrasse, trazendo consigo seus 3 filhos. E que personagem, por pouco não preenchia duas poltronas. Um de seus filhos vinha no colo, era uma menininha de poucos meses, que olhava tudo com seus olhinhos lindos esbugalhados. Já os outros dois, gêmeos e deviam ter seus cinco anos. Duas pestes. Sentaram-se à minha frente, pois uma senhora deu seu lugar para que eles sentassem. Um dos garotos ficou de pé, de frente para eles.
Até aí você pode estar pensando, “Mas e daí? Cadê a graça? Isso eu vejo todos os dias, e coisas bem piores!” Tudo bem, você tem razão, e talvez você nem notasse isso acontecendo milhões de vezes a sua volta todos os dias.
Acontece, que, geralmente,as crianças se comportam dentro de um ônibus. As crianças brincam, quando se tem lugar pra brincar, mas aquelas se superaram. Era mola maluca pra todo lado, corriam pelo corredor e discutiam fantasias heróicas na escola.
Seis da tarde, crianças correndo e gritando. Pensou que só veria em sua casa isso? Sim, era em pleno ônibus em movimento. Por um momento pensei que iria cair num buraco perseguindo um coelho branco. Mas algo me despertou pra realidade: uma bolha de sabão. Quando abri meus olhos, ela, uma enorme bolha colorida flutuava em frente ao meu rosto, até que estourou.
Você sabe o que é uma bolha de sabão, mas acho que quando se está num ônibus, a pressa de chegar faz a gente esquecer tudo que a gente sabe. Quando dei por mim, estávamos viajando pela cidade com o ônibus colorido de bolhas. E a garotinha no colo da mãe erguia os braços pra tentar pegá-las.
Um riso infantil brotou de minha alma crescida, e não consegui o segurar, ri francamente, e isso contagiou quem estava em volta, todos riam, davam gargalhadas e entravam na fantasia. Aquele garoto enchia suas bolhas de ar inocente, e isso nos fazia esquecer as preocupações cotidianas. Até o motorista sorria pelo retrovisor, mesmo eles, que já viram tudo na vida.
Só sei que quando eles desceram, perdeu-se a graça, e voltamos à realidade, como que acordados de um sonho mágico. Só fiquei imaginando depois, que num lugar tão cinza, o colorido faz tanta diferença!
terça-feira, novembro 23, 2010
Instinto
Depois de feito, ela sente. Não através de alguns de seus apurados sentidos, mas através da sua alma. Ela sabe que deu certo e o que deve fazer em seguida.
A partir disso, infeliz será aquele que cruzar o seu caminho. Seja sua caça, seja semelhante ou até mesmo, um predador. Não há inimigo capaz de lhe fazer algum mal, pois ela tem uma missão a cumprir e não permitirá que nenhuma outra espécie a coloque em risco. Lutará com suas unhas e dentes, até eliminar os seus adversários.
O tempo passa e ela carrega esse fardo, que ganha força aos poucos. Sua vida passa a não ter mais importância. Mas mesmo com parte dos movimentos restritos devido ao enorme volume em seu ventre, ela continua mortal. Tomando a vida daquele que ameaçar o que há de mais precioso.
Mais algumas semanas se passam e ela ocupa o seu dia preparando o local ideal. Protegido de predadores, quente e confortável. O lugar perfeito. E no momento perfeito, pois a hora se aproxima.
Não pense em um mar de filhotes, e nem mesmo em uma ninhada de diversos herdeiros. Quando falamos dela, estamos falando de uma única cria. Um animal que será forte e mortal, assim como sua progenitora. O ovo foi botado e em poucos instantes estará eclodindo.
A força e a fúria da raça foi passada para a nova geração, que facilmente destrói a dura casca com seus afiados dentes. A carinhosa mãe observa sem esboçar nenhuma ajuda. Apenas admira sua cria.
Ao sair do ovo, a mãe aproxima o focinho para cheirar. Usa a língua para limpar, mas ao fazer isso recebe uma ousada mordida. Seus olhos se estreitam e ela se afasta por alguns instantes. Ela observa a ousadia de seu filhote ao atacá-la e no instante seguinte, sem hesitar, abocanha o recém nascido. Parte seus frágeis ossos e engole a massa de carne de uma só vez.
Ela não fez por mal, apenas agiu por instinto.
sábado, novembro 20, 2010
Orações
É como escrever nas pedras...
Esperando que as águas nunca venham com muita força...
Sonhando que as letras durem o tempo de uma vida inteira com você...
Mas eu me cansei de forçar a ordem natural das coisas...
Comprei um licor de chocolate e vou viver a insônia esperando que algo aconteça...
Bom ou ruim, nada pode ser pior que este nada à sombra de tudo...
O vazio ecoa a saudade dos tempos em que éramos só sonho e hoje, o pó...
Resto de um passado mal conjugado,
Em orações formadas por verbos imperfeitos...
Orações sem fé, terminadas com substantivos abstratos e reticências...
Jogo pelo chão toda nossa estrada sem voltas.
Passagens, idas e vindas, morte de planos sem sorte.
Em toda raiz, meu nome junto ao teu.
Orações com fé, finais pontuados depois da palavra saudade...
Sinais, pegadas...
Passos que não me levam a lugar algum...
E aqui, ainda, esta esperança pesada...
quinta-feira, novembro 18, 2010
Incorpóreo
No pé da janela,
A mão sobe a xícara de café.
Quero ficar acordado essa tarde.
À olhar os vagantes lá em baixo
Nesse calçadão cinza
Embaixo de um céu ainda mais dessa cor.
Fico a pensar nesse frio. Agasalhado.
Porque será estou aqui,
E eles lá a vagar com seus guarda-chuvas.
Formas coloridas colorindo as ruas.
Um olhar a vagar de corpo em corpo,
Adivinhando desejos, passados e pensamentos.
Um observador imaterial.
Poderia eu ser um deles,
Esquecendo-me tanto assim de mim,
Que deixo meu corpo
Para minha alma vagar nesse ar gelado
Sem sentir frio.
Sim,
O observador não existe a olho nu.
O olhar é a captura do imaginário para o imaginário
Tornando o irreal, palpável menos ainda.
Poderia eu ser um deles,
Ou eles serem meus personagens:
Fazer o que fazem, nos meus papéis.
Poderiam eles ser um eu?
Se de fato, existem,
Não apenas em minha cabeça...
Penso, penso... logo existo.
Será que os outros existem para mim enquanto penso?
Poderiam ser partes de mim
Se não fossem apenas:
Eles?
Mas por enquanto,
Sou apenas uma mosca,
Incorpórea, aérea, etérea,
Vagueando vidas alheias
E sorvendo minha cafeína.
Enquanto vivo a vida de outros.
terça-feira, novembro 16, 2010
Morro de rir
Talvez tenha trabalhado como apreciador de vinho, sendo capaz de distinguir pelo olfato o local, ano e tipo de safra. Por mais que esse sentido seja treinado, ele não será como o meu, capaz de sentir o cheiro salgado do suor que escorre da sua testa, mesmo estando a quilômetros de distância.
Não tente correr, fugir ou me despistar. Você pode conhecer as ruas, a selva, o deserto ou o mar. Mas não seria o suficiente para conseguir escapar de mim, eu serei mais rápido de qualquer forma.
Já vi você brigando e tenho que reconhecer que é um ótimo lutador, mas toda a sua habilidade não ajudaria em nada. Você não seria capaz de permanecer em pé por muito tempo.
Talvez você seja o modelo de um ser humano. Aquela obra prima criada por Deus, capaz de superar qualquer outro semelhante em todos os quesitos. Você continuaria sendo qualquer um. Além disso, sua fé não pode me comover.
Confesso que uma coisa você foi capaz de fazer comigo. Você me fez rir, ou melhor, gargalhar. Eu admito que me mato de rir ao imaginar o que você faria com sua visão, olfato, velocidade, força, habilidade, coragem e com sua fé, quando a coisa mais importante que vai tentar fazer é segurar suas tripas que estarão caindo de sua barriga. Vai ser hilário!
sexta-feira, novembro 12, 2010
Um Minuto em Desencanto
Vento santo, gira o mundo, girassol.
Sementes de sonhos.
Se mente em sonhos...
Medidas exatas,
Destinos concretos.
As dúvidas e as sombras no equilíbrio bambo das pernas cansadas.
Nem fato.
Nem ato.
A solúvel fé que adoça o desespero do impossível.
Me farto.
Me ardo.
Quase me mato.
Medidas mentiras sinceras...
Gira o Sol, gira o mundo.
Vento canta o desencanto.
Céu em estrelas folgadas.
Acordadas a espera de desejos mornos.
Nem cadente, nem mágicas.
Parecem cansadas...
Sementes, estradas, girassóis.
Rodopiam meus sons,
Me roubam as fadas.
Dorme em dia o meu Sol.
Desencanto mudo deste mundo sem cor.
O resgate vale menos que minha dor.
quinta-feira, novembro 11, 2010
Inverno e Queda

O sincero se apaga
Meio a mentira
De uma mente hipócrita
Afaga!
Porque o silêncio é mortal
Dizer a verdade
E ouvir o nada
É desigual!
Quero o que tem,
Tenho o que dôo.
Se já não sou mais tua meta
Passa reto!
Discretamente!
Porque falta de respeito
Eu não Perdôo!
Tenho esperança
Dou-lhe dez chances
E quantas mais precisar
Porque sei que é humano
Que aqui se erra e aqui se aprende
Se engana e arrepende
O que importa é tentar
Estarei aqui
Mas não para sempre
Meu coração não finda,
Mas minha vida se gasta, ainda
Se houver retorno
Mesmo que morno
O inverno haverá de passar.
terça-feira, novembro 09, 2010
Nossa estante
Não posso dizer se seu riso é contagiante, mas o seu sorriso traz uma beleza peculiar. Capaz de confundir o sorriso de uma garota com o de uma mulher. Mas mais importante que seu sorriso, são as palavras que saem de sua boca. Não que eu já as tenha ouvido, mas consigo senti-las através de tudo que sei sobre você. Educação, simplicidade e um carinho em cada gesto seu.
Impressionam, cativam, desnorteiam.
Um conjunto físico encantador, mas que fica ofuscado por aquela beleza que não vemos em uma foto. Dona de uma beleza que está extinta num ser humano, extinta em todos os lugares que vejo e por isso, fui encontrá-la em terras tão distantes. Mas não longe o bastante para deixar de ser real.
A distância que existe entre nós pode ser vencida por um braço estendido. Foi assim que nos conhecemos. Organizávamos nossas estantes, por título, autor ou por gosto - tanto faz. Foi quando nossos dedos se tocaram e nosso olhar se cruzou. O silêncio perdeu sua vez e uma sugestão de leitura foi pedida, dada e lida.
Não precisamos falar do livro, pois ele está lá. Agora não só na minha, mas na sua estante também. Nossas mãos ainda se tocam, assim como nossos olhares continuam se cruzando. O silêncio jamais retornou. Mas uma coisa ainda me deixa inquieto... Seu sorriso. Mas não aquele que vi nas fotos, aquele que sinto em suas palavras; aquele que sinto através de você. Esse sorriso me encantou e foi por isso que o coloquei em minha estante.
quinta-feira, novembro 04, 2010
Ao Dizer que Ama
Ao dizer que ama, não importa se diz para um amigo, um parente ou namorado... É preciso conscientizar que, as pessoas não são segundo a nossa vontade.
Cada um é à sua maneira.
Por mais que a tentativa de agir conforme nossas vontades prevaleça. Por mais que queiram agradar e fazer feliz, um dia a pessoa que você disse que ama, vai errar. E quem não erra? Você? – Impossível.
Por mais que seja construído um sólido currículo de bons antecedentes, de excelentes ações, chega o dia que a gente não atende às expectativas e “plaft”. Para onde vai o amor?
Ao dizer que ama, tenha a certeza plena que o amor compreende. Que o amor perdoa. Que o amor é benevolente e paciente. E, segundo palavras da bíblia, “Não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal.
Não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
Ao dizer que ama, tenha consciência de que quem recebeu a palavra, pode te amar também. E que se ama mesmo, vai saber o real valor dos teus atos, mesmo que eles não correspondam às expectativas.
Entre
É um entre A e B físicos,
Simbólicos, estáticos.
Um "entre" mutante
Que se move no tempo-espaço.
Um cenário que passa
Que é, que era.
Deixa de ser.
Um passageiro que entra
Não é o mesmo que sai.
O tempo muda as pessoas
O espaço muda as pessoas
Mudam os passageiros
Mas o que fica de um meio?
O que fica entre A e B
que não seja o espaço?
Um vazio? O vácuo?
Ficam as linhas lidas
De um livro qualquer?
Uma ficção maior que esta em volta?
Ou ficam as pessoas?
Que ficam cada uma em seu ponto final.
Um sinal, uma placa, um traçado?
Outdoor, uma curva ou cruzamento?
Ou a lembrança de um lugar
Passado.
Agora,
Passou.
terça-feira, novembro 02, 2010
Aqueles olhos
o tempo está neutro.
Olho para o céu,
não vejo estrelas.
Ouço ruidos,
ouço vozes,
Minha mente está cheia.
Minha mente está vazia.
Em nada penso,
em tudo penso.
Não sei no que penso.
Eu penso?
Minutos, viraram horas.
Horas, viraram segundos.
Não medi o tempo.
O tempo passou?
Vejo um sorriso.
Vejo um rosto,
já conhecido.
Mas ainda desconhecido.
Eu estava inseguro,
estava ancioso.
Aqueles olhos,
me perseguiram.
Ou será que me seguiram?
Ou então, nem me viram?
Eles estavam lá,
me olhando.
Observando.
Estudando.
Não sei como,
mas me senti seguro.
Fiquei bem.
Estava em casa.
O tempo passou.
Passou?
Mas foi como
se estivesse parado.
Voltei para casa.
E sorri.
Um rosto novo,
eu conheci.
Mas fico pensando
naqueles olhos.
Eles me olharam.
Mas será que me notaram?"
sexta-feira, outubro 29, 2010
Menos ainda, amor.
Quero correr pelo teu sangue, entorpecer a tua mente, queimar a tua face, dilatar tuas pupilas.
Ser teu vício, teu destino mal dito e mal feito, sem escolhas e mil defeitos.
Viver em teus sonhos como pesadelos para que me tenha medo.
Não quero morada no teu coração.
Quero, descalça, pisar no teu chão sem flores e refazer as migalhas do que te resta. Arrancar-te o fôlego, a roupa e o resto.
Não quero morada no teu coração.
Quero teus suspiros de saudade.
Minha falta entre as tuas.
E no sereno desconcerto do que sentes, o susto e a surpresa:
- Não é nada.
Só uma aventura, uma sorte, um doce entre os dentes.
Não é nada, menos ainda, amor.
Paixão, com pouquíssimo pudor.
quinta-feira, outubro 28, 2010
Mais que uma Folha
à mercê do vento
Qual confio minha seiva,
Minhas palavras:
"Chamem pra roda
voz em vôo
Todos aqueles que me fazem dançar
Chamem a água e a terra; a Lua
Pois a noite que chega,
É jovem e Nova.
Chamem também o fogo e o ar:
O sol se vai, mas retornará.
E não se esqueçam
De convidar
Os filhos da noite e do dia,
E toda família
Todas as estrelas e astros do céu!"
Chega o momento
A fogueira se acende
A brisa a belisca
E no chão batido
Envolto por brumas
Solo e teto giram
E o tempo corre,
Cósmico.
O que era círculo,
Se põe numa reta:
O olho se fecha, maravilhado.
O consciente torna-se in
E a folha segue seu fluir,
Seu existir.
terça-feira, outubro 26, 2010
Você não me conhece
Sei como a lâmina do frio corta. Minha pele foi cortada inúmeras vezes por esse metal. Também sei como o ronronar da fome dói, pois ficar horas sem comer não é nada para quem passou dias. Talvez você saiba como é ruim andar algumas quadras com um sapato apertado, mas experimente caminhar meses sem um calçado no pé.
Calos, bolhas, cortes, assaduras. Dores. Você não sabe o que é sentir dor, eu sei! Eu passei por coisas que você jamais imaginou.
Não se iluda com o meu cabelo penteado e o cheiro do perfume que sente ao cruzar comigo no corredor. Você não me conhece. Não pense que cheguei aqui por sorte.
Roubei, pois tinha fome, frio, sede. Nunca tive dinheiro nas mãos para me livrar desses fantasmas. Se não estudei na hora certa, foi porque não tive a oportunidade. Mas nada disso é capaz de ditar meu comportamento. Não me venha com essa de destino. O destino é refúgio para fracos que não têm coragem de mudar sua própria condição. Eu lutei, eu me esforcei. Eu venci! Mudei aquilo que você diria ser o meu destino. Minha escolha foi deixar de ser pobre.
Supletivo, cursos públicos, dedicação e garra. Decidi mudar minha vida, e foi assim que superei o frio, a fome e a sede. Foi assim que conquistei um teto e não um concreto qualquer para ficar entre meus olhos e a poluição do céu.
Pensa que o carro que dirijo foi presente do meu pai? Acha que a casa que tenho foi feita por um arquiteto famoso? Não se precipite.
Meu passado me fez ser quem sou hoje. Então, não me julgue antes de ver os calos em minhas mãos e as cicatrizes nos meus pés. Você não me conhece.
sexta-feira, outubro 22, 2010
Silêncio
E exija de mim a ação breve de te desejar sem pudor.
Só não me queira sorrisos demais.
Hoje minhas portas se trancararam.
Meus sons se calaram...
E o silêncio que vaga,
Me avisa que asas me levam daqui.
Me peça em silêncio,
Com os olhos de quem ama em momento.
E abrace com braços e pernas de quem não me quer distante, agora.
Por um momento, exija de mim versos que te fazem voar.
Só não me peça mais do que eu posso dar.
Minhas janelas se fecharam e já não vejo mais o mar.
E este silêncio necessário,
Emudece a voz de quem não canta dores em versos de amar.
Me silencie.
Me cale.
Tenha de mim, olhares.
Mãos nas suas...
E corpos unidos como um só.
Não será eterno, é certo.
Mas o céu vai se abrir em cores...
E a canção, em segredo, te dirá que teve de mim mais que a paz...
Silêncio...
quinta-feira, outubro 21, 2010
Confessionário
Ele disse, “Meu patrão se reelegeu, rapá! To susse!”. Era o fim da picada! Depois de um dia daqueles, eu ainda tive que escutar isso. Trabalho sério, sou mãe de dois filhos, dou duro na vida, pra ouvir um moleque daqueles, sim um moleque! Falando aquelas besteiras!
- E o que aconteceu? – me perguntou o homem ao meu lado pra quem eu contava a história.
- Aquele ônibus lotado, sem lugar direito pra respirar, aquele som ambiente que tenta nos acalmar, mas só nos estressa mais, e aquele moleque falando alto e dando risadas. Ele falava, “Sou assistente do gabinete dele, e ele disse nessas eleições que era pra gente trabalhar, que depois teríamos mais três anos de folga! E agora to tranqüilo! Hahaha”.
- Dentro do ônibus?
- Lotado! Fiquei incorfomada! Foi quando perdi a paciência! E disse na cara dele, “Seu babaca! Você é um babaca! Nós sabemos que a coisa funciona assim, mas precisa jogar na nossa cara? Você é um moleque babaca! Você e seu deputado!”.
- E aí?
- Ele me olhou assustado, com medo de ser jogado pra fora pela janela. Mas uma mulher quis se intrometer, disse, “Mas que mulher barraqueira! Que horror!”, Aí não agüentei. Chegou no meu limite. Virei pra ela, “Barraqueira? Nós trabalhando duro pra por pão e água em casa, pagando um imposto maior que nosso bolso, e esse filho da deputada toda debochando do país inteiro! Você é uma tonta, escutou? Pois é você que está pagando o salário desse debochado!”. Então voltei pro babaca, “Quem é o teu deputado, seu malandro?”. Ele ficou roxo, rosa, verde, e tudo mais, deve ter percebido a grande cagada que fez. Ficou quieto.
- E o resto do ônibus?
- Ficou dividido, oras. Entre o pessoal que ficou quieto fingindo que não era com eles, e os que me apoiavam, encarando o moleque.
- E ele? Respondeu?
- Não. Mas depois de eu perguntar algumas vezes, uma outra mulher, um pouco distante interrompeu a tortura, “Pode deixar, se ele não falar, eu descubro, sou promotora do tribunal! Descubro fácil quem é teu manda-chuva seu malandro! Quem mandou dar com a língua nos dentes!”.
- Bem feito!
- Bem feito mesmo! E quando eu tiver férias, pode ter certeza, vou correr de gabinete em gabinete, pra encontrá-lo de novo, e descobrir quem é o tal deputado. E falei isso pra ele.
- Incrível ele não ter apanhado!
- Foi por pouco. Mas ele desceu na primeira parada. Agora tenho que ir, meu ônibus chegou. Até mais!
- Até! E vamos ver como essa história acaba!
terça-feira, outubro 19, 2010
Grave!
quinta-feira, outubro 14, 2010
Gatos no forro
Abrimos o forro, aquela tampa velha e cheia de cupim que por muito tempo descansava inerte e criava centenas de teias de aranha. E naquele imenso negrume profundo surgiu sua face. Branca imunda e felpuda. Um felino asqueroso e tenebroso! Ao ver-nos arreganhou as presas e miou bravo! E no segundo seguinte, pulou sobre nossas cabeças. E no terceiro segundo, sumiu.
Felizmente, o feitiço foi cortado pela raiz, antes que a gata desse filhotes.
terça-feira, outubro 12, 2010
Meu medo
A garganta seca dando início a tudo, sendo logo seguida pela boca e lábios. A saliva desaparece de nosso corpo e nos perguntamos para onde ela teria ido. Eu sei; para nossas axilas, palmas das mãos e às vezes para nossa nuca e pescoço. Suamos frio, sentimos o calafrio, sentimos o sangue gelar e parar de circular em nosso corpo. Mas isso seria contraditório, pois meu coração bate mais forte do que nunca, como se fosse explodir ou saltar pela garganta.
Nossos olhos, apesar de estar esbugalhados, pouco conseguem ver. Ou melhor dizendo, eles enxergam melhor do que nunca, mas na esmagadora maioria das vezes, só vemos uma coisa: aquilo que nos fez ficar dessa forma. Além disso, além do causador de nosso medo, não vemos mais nada. É como se estivéssemos enxergando através de um cano ou de um buraco de fechadura.
Retesados, rijos e sólidos como rocha. Nossos músculos demonstram a intensidade do efeito causado. E apesar de demonstrarem tamanha força, eles recusam-se a nos ajudar a tomar alguma ação. Seja reagir, correr ou apenas desfalecer.
Mas apesar disso tudo, não tenho nada contra o medo, pelo contrário. Relato com tamanho domínio no assunto, por ser um medroso nato. Tenho medo por mim, pelos outros e por aquilo que nem mesmo está próximo de mim. Sinto medo.
Mas existem momentos que, não sei por qual razão, eu não sinto medo. Permaneço frio e impassível, com a expressão firme e singular diante daquilo que deveria me trazer o medo. Em momentos como esse meus olhos deixam de ser amigáveis, meu sorriso desaparece e confesso que deixo de me reconhecer. Torno-me outra pessoa. E quando esse tipo de coisa acontece, sinto medo. Sinto muito medo de mim mesmo.
sexta-feira, outubro 08, 2010
O Sol Não Dorme
Amanhece, amanhecemos.
Anoitece, anoitecemos.
E como camaleão, vamos nos adaptando...
Mudando as cores, mudando os tons...
Nos forçando a vestir de realidade...
E nas fugas interiores, brincando de ser quem somos...
Encenando personagens que existem no elo entre nossa sabedoria e nossa loucura...
E o que não nos deixa morrer?...
E o que acorda nosso sonhos evitando que eles durmam para sempre de tão cansados?...
Parece e pode ser algo maior...
Intenso, insensato, inexplicável.
Talvez o tempo...
Ou, talvez algo que habita em nós, além do tempo que faz moradia dentro e fora de qualquer ser humano...
Passamos por sombras...
Desastres, desatinos...
Mas há uma doce misericórdia por nós:
A certeza de que tudo passará um dia...
Talvez passe no mesmo flash que chegou a dor...
Ou, talvez... dure o tempo de compor muitas melodias...
Mas, ainda que vivam as lembranças...
Viveremos a expectativa maior de sermos mais...
De termos mais... De sermos maiores...
É também doce a espera pelo o arco-íris...
As tempestades se farão sempre... Inevitável...
Mas, nenhuma tempestade vai embora sem deixar o colorido que esperamos...
O Sol não dorme...
quinta-feira, outubro 07, 2010
Em Tarde Ser Sereno
Um grão de terra morna,
A ouvir as cigarras em côro,
A se agasalhar com a brisa,
Que nasce por trás dos morros.
Do galho ali, ao horizonte
Cantam os sabiás,
Que tentam trazer de volta
O colorido que dissipará.
Perfumam-se com a vinda do véu,
As flores que vivem de estrelas.
Aprumam seus vestidos de pétalas,
Para o baile da lua cheia.
Os quentes das cores vivem eternamente,
Com a sinfonia da primavera,
Em tarde ser sereno
Para a noite ser mais bela.
terça-feira, outubro 05, 2010
Se... porque
foi porque você me prendeu aqui.
Se eu perco a hora,
foi porque fiz cera pensando em você.
Se passo dias sem comer,
é porque seu amor me alimenta.
Se eu ando distraido,
é porque só existe você em minha cabeça.
Mas...
Se hoje eu choro,
é porque sinto sua falta.
Se hoje fico triste,
é porque preciso de você por perto.
Se hoje estou fraco,
é porque me falta a sua força.
Se hoje estou morrendo,
é porque me falta a vida...
É porque eu vivo você!"
segunda-feira, outubro 04, 2010
Projeto Ficcional (pt 2 - fim)
sexta-feira, outubro 01, 2010
Prenda-me "Em Canto"
Me abrace.
Não desfaça as amarras.
Me queira presa em teus braços.
Sou livre quando algemada em teu gosto.
Adentre sem bater.
Quero tua voz fingindo promessas de amor.
Ser teu sono, tua falta, teu engano, teu calor...
Transformar teu sonho, paisagem.
Riviver estrelas no mar do Arpoardor.
Borde em meus cabelos teus carinhos.
Grave em mim tuas palavras.
Beba em minha boca o que te mata a sede.
Intensifique as notas e aumente os tons.
Me viva em cada refrão.
Me consuma.
Me ame em cada pedaço de chão.
Mate e reviva teu peito em meus tambores.
Sou quase som quando ouço tua voz.
Sou quase poesia quando me prendo no teu beijo.
Sou quase céu quando te tenho sol.
Sou quase lua quando te tenho noite.
Me amarre em seus versos.
E não me solte em rimas.
Quero ser a melodia dos teus passos
A caminhar pelas estrelas do meu chão.
Quero ser prisioneira da tua canção.
Prenda-me, encanto. Em canto.
quinta-feira, setembro 30, 2010
Vota Cão
Palavras bonitas
Gravatas engomadas
Sapatos engraxados
E no canil,
Caras ensebadas,
Trapos e patas no chão
Sem alfa nem Beto.
Vai cão!
Vota!
Tem direito!
Mesmo de esquerda,
Tá na constituição!
Constitui cão
Todo aquele que sabe latir.
Então,
Vira a lata,
Faz forféu.
Das madames de fitinha rosa,
Aos sarnentos de plantão.
Cão é cão,
E merece atenção!
Mas não balance o rabo à toa,
Pro primeiro que lhe der a mão.
Porque tem cão que é raposa,
Mas não engana não.
Totó um ossinho aí!
Joga o galhinho pra buscar.
E assim que o sol se pôr,
- Vai pra fora e fica quieto.
Se latir apanha,
Se cagar na grama,
Te mato!
Mas vai cão!
Vota!
Tem opção?
Opa cão!
Escolhe teu dono então.
terça-feira, setembro 28, 2010
Toquinho
Os primeiros tiveram o mesmo tamanho. Uns preferiam ter um para cada assunto, outros, preferiam ter um para todos os temas e colocar tudo lá dentro, sem ter preocupações para organizá-lo.
Alguns eram meigos, outros eram mais heavy metal e sempre tinham aqueles que não tinham ‘cara’ de nada. Mas independente de como era sua aparência, o mais importante é aquilo que estava no seu interior. E mesmo para aqueles que não guardavam quase nada em seu interior, ele era sempre levado pra cima e pra baixo.
Lembro-me que alguns eram usados apenas para nos proteger da chuva, quem é que não fez isso? Às vezes, ele só era lembrado no momento de uma guerrinha durante a ausência de algum professor na escola. Ele estava lá, presente. Ao nosso lado, para nos servir.
Confesso que guardei muito mais do que algumas informações e conhecimento naqueles que usei. Guardei parte de mim. Guardei sangue, lágrimas e letras. Nele eu registrei momentos que jamais voltarão, assim como a caricatura de um professor, que minha mente se recusa em lembrar o seu verdadeiro rosto. Guardei conversas, colas, rascunhos. Guardei idéias, sonhos. Posso não tê-lo mais em minhas mãos, mas sua serventia foi indiscutível, pois permitiu que minha mente fosse libertada.
Querido Toquinho, posso ter deixado meu caderno num canto qualquer, mas tenho certeza de que junto do caderno, deixei parte de mim.
segunda-feira, setembro 27, 2010
Projeto Ficcional (pt 1)
sexta-feira, setembro 24, 2010
Vésperas, outra vez.
Nascimento, infância, adolescência estranha e quase adulta...
Os sonhos realizados, os outros tantos refeitos, transformados... Alguns mortos, outros suicidas, alguns abortados pouco antes de serem concebidos... E muitos outros sonhos e tantos a serem conquistados, vividos...
Às tantas da manhã, ela ainda consegue derramar lágrimas sabendo bem de quê, mas acorda com o sorriso feito e sincero, pois é dela a alegria de viver.
Abraça com os braços estreitos tudo aquilo que lhe é bem quisto, bem vindo. E aperta, quase sufoca, o que lhe é garantia de risos e lembranças doces.
É estranha. Uma dualidade sem fim, umas contradição sem norte...
Às vezes é não, às vezes é só sim.
Mas deixou há quilômetros e há anos todas as certezas... Demorou, mas hoje finge que entendeu que as certezas se desfazem... Embora a sua certeza nunca tenha se desfeito...
Tem nos olhos o mesmo brilho. Só que, às vezes, o opaco da razão o emudece.
E, embora ainda não saiba se é bom ou ruim, é teimosa a ponto de reinventar todos os seus passos, às vezes cansados, só para viver uma vida inteira.
Anda com medo dos “tics e tacs” do seu relógio. Ela tem tanta pressa que aprendeu a seguir só, caso alguém demore muito para ir junto. Porém, vive a reclamar a falta do abraço... do colo de quem nem precisa ouvir nada. Apenas sentir este coração que desaprendeu o ritmo e desacelera todas as paixões.
Vésperas... e, amanhã sendo primavera, não é preciso estação para quem tem suas flores brotando todos os dias... E dos espinhos, faz arte com dor ou, com cicatrizes... Só nunca deixa de plantar as sementes...
Ela não sabe muito de nada... E nem pouco de tudo... Mas celebra sempre o viver...
Vésperas... e amanhã, mais uma primavera...
(escrito em 14/09/2010)
quinta-feira, setembro 23, 2010
Lançamento
E somos lançador pro ar.
É muito fogo, é muita fumaça.
Mal dá pra respirar.
A vida inteira somos lançados,
Arremessados num céu infinito
Sem saber aonde isso vai dar
No ar!
Ao vivo, vivendo mesmo.
Porque a queda é braba,
Pode deixar sequelas,
É pra valer!
Mas tá valendo.
Se vingar,
Iremos até o mundo da lua,
E lá, sem os pés no chão,
e sem gravidade,
o que é gravíssimo!
Seguiremos sonhando.
Sem deixar o tanque esvaziar,
Abastecendo-o de muitas ideias
Sempre de férias com a Terra.
Num lançamento, eu minto
Invento que um dia vou voltar
Mas por um momento,
Eu penso,
Eu sei que não tenho data nem hora,
Pra chegar.
Agora,
E nesse instante,
Nessa contagem regressiva
que não parece terminar,
Ficamos com as cabeças nas nuvens,
Sem saber se o piloto é a sorte ou o azar.
Fogo!
terça-feira, setembro 21, 2010
A última carona
para o sol se por ao longo do dia.
Nem mesmo o tempo que leva,
Para a lua orquestrar a noite.
Eu vou dizer aquilo que penso,
fazer aquilo que quero.
Vou amar aquilo que faço.
Viver!
Não importa se estará ao meu lado,
ou se terei que fazer tudo sozinho.
Não faz diferença se estarei com alguém,
pois não é o que me preocupa.
Posso cometer um erro, ou dois.
Posso estar enganado.
Mas jamais estarei arrependido
de seguir em frente.
Esse é o único caminho,
para me fazer voltar pra casa.
Estaria você comigo?
Estaria você ao meu lado?
Não tenho pressa.
Nem mesmo,
todo o tempo do mundo.
O tempo é esse!
Com ou sem você,
seguirei minha vida.
Estendo minha mão,
uma última vez.
O tempo pode passar mais rápido,
Ou então mais devagar.
Ele só não vai voltar atrás,
de novo!
quinta-feira, setembro 16, 2010
Sono
Felicidade, não tem idade,
Tem dia.
Curiosa simpatia,
De deitar a cabeça no travesseiro,
Faceiro!
Sem nenhum peso ou arrependimento,
Por um momento refletir:
“Será que antes do sol se pôr,
Seja por ódio ou por amor,
Fiz mal a alguma criatura?
Ou, por ventura,
Saciei todas minhas vontades?”
É tarde.
Outra oportunidade, só depois de sonhar.
Pois acordar, quem diria,
É um truque de sabedoria.
terça-feira, setembro 14, 2010
Revolta das sombras
Olhava para trás com o pânico nos olhos e já pensando em se entregar. Dobrou mais dois quarteirões e desistiu. Começou a caminhar, não quis olhar para trás. Fechou os olhos. Foi quando sentiu seu corpo ser puxado, o frio percorreu seus membros e a escuridão cobriu seus olhos. Estava morto.
A cidade estava em caos, pois era o 14º desaparecimento naquela semana. Nenhum corpo encontrado, nenhum vestígio, nenhuma pista. Não havia perfil para vítimas e a única coisa que se sabia, é que os desaparecimentos ocorreram durante a noite e com pessoas que estavam sozinhas.
Ninguém mais permanecia nas ruas depois do pôr do sol. O medo era geral, e nem mesmo as autoridades arriscaram alguma atitude.
O lar era a única salvação. Era a segurança. Mas não tardou para ser o lugar mais perigoso para se ficar. As pessoas começaram a desaparecer dentro de suas próprias casas. Nenhum sinal de tortura, armas ou de uma entrada forçada nas casas. Pelo contrário, o lugar sempre estava como fora deixado no dia anterior.
Não havia mais uma noite segura. Alguns buscaram se mudar, outros buscaram se reunir para passar as noites. Mas isso não impedia que novos ataques ocorressem. Era algo silencioso, sutil e definitivamente mortal.
A jovem garota estava tendo pesadelos e acordou no meio da noite. Estava assustada, mas algo dentro de si a impediu de gritar. Ao contrário disso, caminhou lentamente para o quarto dos pais. A porta estava entreaberta e pode ver uma delicada claridade que entrava pela janela do quarto.
Assim que pensou em entrar no quarto, recuou. Notou que a sombra formada pela janela tinha se mexido. Pensou num gato ou num galho de árvore, mas a sombra continuava se movendo. O retângulo formado pela janela mudou de direção e sua claridade subia pela cama de seus pais. Não sabia o que estava acontecendo, mas logo descobriu. A claridade da janela estava sobre o rosto de seus pais e, de uma forma mágica, ela foi diminuindo. Quando a claridade da janela desapareceu, o corpo de seus pais não estava mais lá.
Gritou. Entrou em desespero. Tinha acabado de ver a sombra da janela ‘engolir’ seus pais. Virou-se para correr, mas a claridade da janela já tinha voltado ao normal; tal claridade, tinha formado a sombra de seu corpo. Calou-se, e ainda soluçando, pode ver sua sombra abrindo os braços e lhe abraçando. Um abraço frio, um abraço escuro. Não gritou, não chorou, e nem teve medo; estava morta.
Com o passar das semanas, as pessoas foram sendo exterminadas. A cidade ficou vazia; não havia mais nenhuma pessoa. Não havia nenhum corpo. Não havia mais nada.
Os braços das sombras levavam a morte e eles se estenderam para as cidades vizinhas; em seguida, para os outros estados. Cruzaram paises e continentes. Quando o mundo se deu conta da revolta das sombras... ele não mais existia. Pois a sombra da lua engoliu a Terra.
sexta-feira, setembro 10, 2010
Lamentações
Também lamento pela falta de sono, pelas olheiras de amanhã, pela falta de dinheiro e pelas muitas idéias que fabrico durante toda madrugada sobre "como ficar rica".
Aliás, lamento por desejar ainda ser rica.
Lamento pelos cálculos que antes eram feitos por possíveis fortunas e hoje são feitos por inúmeras contas a pagar.
Lamento pelo IPVA, pelo IR, ISS, e tantos outros "I"s.
Lamento por não ser mais a cdf do colégio, nem a capitã do time de vôlei, nem a garota que andava 15 km de bicicleta todos os dias.
Lamento. E lamento ainda mais as lamentações.
Lamento pela Terra Nunca ser só fantasia.
Lamento por insistir com os pés enterrados no passado enquanto a vida passa, enquanto ele passa.
Lamento ainda, não conseguir, pelo menos um dia, ficar sem pensar nele (mesmo que seja mal).
Lamento não dar "enter" e começar outra história, mesmo que seja para lamentar depois.
Lamento pelos passos obrigados a conhecer o fracasso, a desilusão e a distância da fé.
Lamento pela anfetamina, pela ração humana, pelos cremes anti-rugas e anticelulites.
Pela tinta no cabelo, pelo corte mais curto e pelas unhas vermelhas.
Lamento pelos CDs substituindo minhas fitas K-7 e por eu ter que reescrever minhas lamentações no computador.
Por fim, lamento por ter me transformado nesta pessoa que vomita suas lamentações na madrugada e no dia seguinte tem a cara lavada e sorriso no rosto, sustentando a bandeira de que vale a pena viver.
Difícil é aceitar que, envelhecer e amadurecer, fazem parte do processo. É, também, viver.
Já são 02:38 da manhã. Preciso dormir.
Amanhã?
– Recomeço.
quinta-feira, setembro 09, 2010
Cada um em seu Tempo
Sei que o lado de lá
E o de cá
Cada um é um
E cada qual
É tal
Que não são os mesmos relógios
Que o ponteiro roda desigual
Cada um tem suas vontades,
Dos que já foram e desejam ajudar,
Dos que irão e querem ir felizes.
Mas cada um tem seu tempo
Fazer todos fazem
Todos são capazes
De mudar e mudarem-se
Se cada um tem seu tempo,
Para aprender, entender e fazer,
Então cada um tem seu pulso e batedor,
E não pode exigir um minuto sequer
De outro que anda atrasado ou adiantado,
Seja por preguiça, desaforo, ou até mesmo amor.
Por fim,
Só há um tempo a confiar
Um coração pra bater
E viver e pulsar.
Um pulso egoísta inconsciente,
Que deve sempre fluir em frente
Pois viver sozinho no meio das pessoas,
É o caminho.
terça-feira, setembro 07, 2010
Recompensa
Mas é olhando no fundo dos seus olhos que eu ainda vejo aquele brilho; sim, aquela chama que mostra que você tem mais energia guardada. Mesmo o seu rosto, sua expressão, seus sinais de fadiga, não são o bastante para me convencer, pois aquela chama no fundo dos seus olhos me confirma. Ela diz que ainda podemos continuar; que ainda posso extrair mais de você.
Não foram minutos, não foram horas... Levou muito mais tempo. Durante o caminho, nós nos machucamos e parte dele ficou marcado com o nosso sangue. Marcado com o nosso suor.
Sempre soubemos que enfrentaríamos um terrível obstáculo. Sempre acreditamos que tudo isso valeria a pena, pois no final seriamos recompensados. O convívio nem sempre permaneceu como queríamos. As discussões foram inevitáveis, mas foi tudo fruto do cansaço. Conseguimos superar isso também.
Nos momentos mais difíceis, usamos o ombro um do outro para nos apoiar. Nos obstáculos mais altos, um sempre estendeu a mão ao outro, e foi assim que conseguimos subir até aqui. Nos momentos de frio, eu lhe aqueci. Nos momentos de insegurança, você me confortou. Nos momentos de dúvida permanecemos abraçados por mais um dia, pensando na melhor decisão. E sempre tomamos a melhor decisão e prosseguíamos com nosso trajeto.
Quando você ia cair, eu estava lá para evitar sua queda e quando eu estava a ponto de desistir, aquele brilho em seus olhos me confortou e me trouxe de volta. Chegamos aqui juntos, então não me faça essa cara de cansaço. Falta pouco.
Algumas horas depois, após termos passado por uma dezena de rochas, a grama começou a pintar o chão rochoso de verde. A subida que antes era totalmente íngreme, passou a se tornar suave. Demos as mãos e corremos até o topo. Chegamos na hora certa; a tarde estava caindo.
Sentamos um ao lado do outro, você apoiou a cabeça em meu ombro e juntos assistimos o pôr-do-sol.
sexta-feira, setembro 03, 2010
Tua Verdade Se Foi
Te fiz altar, te circundei de flores e pintei minhas cores nas tuas tardes pálidas.
Anunciei tua mansidão, abracei o teu carinho e transpirei teu amor.
Te criei e recriei.
Te fiz santo, profano, encanto e canto.
Te vesti de conto de fadas.
Esbocei sorrisos de telas na tua face.
Bordei no teu dia o brilho do Sol
E pintei na tua noite os mistérios da Lua.
Rola lágrima em pranto.
Te ver partir é meu desencanto.
Tua sombra aqui é sem cor, sem brilho e nem mistérios.
É o que sobrou das verdades que criei.
No chão da minha alma,
Apenas a cópia fria e sem graça do teu retrato.
A tua verdade se foi.
E dói.
Dói saber que quem amei,
Não passava de uma mentira minha.
terça-feira, agosto 31, 2010
Esperança
Não pense que é por má vontade, ou por falta de tentativa, mas a convivência com ela é insuportável. Por mais que eu seja educado, prestativo e interessado, não consigo me dar bem com ela, e vice-versa. O desgosto é mutuo. E não sou eu o problema, pois assim como todas as outras pessoas não a suportam, ela não suporta ninguém além da própria presença.
Sua voz, seu cheiro, seu olhar. Suas roupas, suas escolhas, seus gostos e suas opiniões; tudo é detestável. O ar fica pesado quando ela está por perto, e ela sempre está por perto. Por mais que eu tente ignorá-la, não consigo deixar de perder a paciência.
Já tentei veneno de rato, calmante e até mesmo jogá-la da escada, mas nada disso adiantou. Ela continua viva, atormentando meu mundo e voltando ainda mais indesejável do que antes. Confesso que desisti de dar cabo dela, afinal... não adianta.
No começo, quando estamos apaixonados – ou não, isso não é fator de preocupação. Isso não chega nem mesmo a ser algum tipo de pré-requisito. Não damos bola para coisas banais. Porém, o tempo passa e conhecemos melhor tudo aquilo que cerca o amor, e é nesse momento em que caímos do cavalo. Foi nesse momento que a conheci.
Não pense que eu deixei de amar, pelo contrário, eu amo minha esposa mais do que nunca e é por isso que suporto a presença da mãe dela. Mas suporto isso ciente da lição que eu aprendi. Não se trata apenas de um ditado, o fato é que, realmente, a Esperança é a última que morre.
sexta-feira, agosto 27, 2010
Quase Primavera
E no jardim, renovam-se as rosas de cor azul.
Regam plantas e replantam todas as magias que dão cores ao dia.
O tempo te faz cético. E todas as cores correm o risco de tornarem-se preto e branco, quase cinza.
O mistério e o desvendar tornam-se fagulhas desinteressantes. Porque o tempo te faz sábio. E, às vezes, a sabedoria é um tanto sem graça.
Adeus ao frio na barriga, aos olhos assustados, à angústia do medo, à adrenalina da ousadia. Porque o tempo te faz sereno.
E aumento o cuidado para que o vento não seja apenas fenômeno físico. Porque é tão bela a poesia que sopra teus cabelos.
E, então, há uma destreza para que as linhas do arco-íris emoldurem aquele dia sem graça depois da chuva. Porque as tardes não podem morrer sem graça nos braços de quem tudo já viu.
Tempo passa, passa tempo. E o relógio pesa mais a cada “tic” e enlouquece o são a cada “TAC”.
Sem medidas, sem pesares.
Sem data de nascimento.
Renovam-se todas as flores, porque vem chegando primavera.
terça-feira, agosto 24, 2010
Perseguidos com razão!
Seu principal algoz era conhecido por ser realmente mau e por sempre perseguir o trio indefeso, que por diversas vezes buscaram alguma solução para evitar as incansáveis investidas contra eles. Tentaram se disfarçar e tentaram se defender. Tentaram reforçar os acessos para a sua humilde casa, mas nada disso adiantou. O perverso algoz superava facilmente a palha, a madeira e até mesmo o resistente tijolo.
Diante da modernidade do mundo e das oportunidades de aprendizado que eram oferecidas a jovens interessados, os três irmãos decidiram pelo estudo. Agüentaram por mais tempo a exploração do malvado algoz, visando o retorno em médio prazo. Cada um dos irmãos buscou uma especialização, estudaram de forma dedicada para serem os primeiros alunos de suas turmas.
Após um tempo de formados, os três pequenos irmãos indefesos decidiram contra-atacar e aplicaram o seu plano e seu conhecimento adquirido. O primeiro especializou-se na arte da caça, capturando o terrível algoz dos trigêmeos. Já o segundo, estudou com afinco as técnicas do corte. Aprendendo os segredos dos melhores açougueiros do mundo. Por fim, o terceiro irmão, especializou-se na arte da culinária e tornando-se perito no preparo de todos os tipos de pratos.
Durante a refeição, onde os três felizes porquinhos saboreavam o delicioso assado de lobo mau, o terrível algoz, o caçador perguntou ao cozinheiro:
- O que é esse grande curativo na sua barriga?
O cozinheiro terminou de mastigar, suavemente limpou a boca no guardanapo e respondeu:- Não é a toa que sempre fomos perseguidos. Esse prato não estaria tão gostoso se não tivesse bacon.
sexta-feira, agosto 20, 2010
Pessoas
Nem me encontrava,
Mas também não me perdia...
Quase sem razões... Estacionei meu tempo...
Este mesmo tempo, único!!!
Igual para todos em qualquer lugar do mundo!
Cem razões surgiram...
Muito ainda há para viver em um minuto.
Muito há para aprender neste mesmo "um minuto".
Sigo, a cada instante, observando os atos...
Os desatos e fantásticos "natos" desta louca vida.
Esta louca que nos transforma em monstros..
Por vezes santos, outros loucos e sábios.
Sou um pouquinho de você
E somos um pouquinho de cada um...
Na verdade, somos o composto do que apreciamos mais um nos outros!
Tenho sorte por conviver com pessoas distintas,
Com pessoas especiais, fantásticas e loucas...
Diferentes... Parecidas... Identidades sem números!
Tão loucas e santas que me tornam esta mistura que sou...
Pessoas: Composto sem fórmula
Remédio sem bula
Livro sem editorial
Caminhos de lições...
Pessoas... Um pouco de mim...
Um pouco de você...
Um pouco de nós...
quarta-feira, agosto 18, 2010
Não é nada demais...
Os olhos ardem, marejados, mergulhados em seus fracassos e sedentos por noites melhores.
Os olhos ardem apenas pelo vento e nada mais...
Você consegue ouvir seus próprios passos se destacando na marcha. Músicas distintas num descompasso harmonioso. É a partitura escrita por São Paulo. Tocada pelo charme da Paulista, cuspida pelas saídas do metrô. Cospem seres... Humanos ou não. Seus olhos fotografando segundos. Cabelos, roupas e tribos.
Os olhos fotografam e nada mais...
A vontade de ficar parado e deixar o vento congelar suas lágrimas antes que elas saiam. Congelar as vontades antes que nasçam. Evitar as decepções, personagens principais da sua própria avenida... Paulista ou Afonso Pena...
Os pés caminham e nada mais...
terça-feira, agosto 17, 2010
Espelho de mim
Eu fiz tudo àquilo que precisava fazer para você notar a minha presença. Sussurrei o seu nome para o vento e deixei que o mesmo fosse carregado para todos os cantos. Visitamos lugares os quais nunca sonhamos. Nem isso você foi capaz de perceber.
Estou precisando do seu toque, do seu olhar, do seu cheiro. Eu preciso que retribua tudo aquilo que fiz por você. Eu preciso do amor capaz de espantar todo esse frio. Talvez aquele capaz de me fazer esquecer o sentido da vida e me entregar ao momento. Eu preciso do amor que lhe ofereço todos os dias.
Olhe para mim e veja, não apenas olhe. Sinta meu cheiro, não apenas respire ao meu lado. Observe meu sorriso e não apenas devolva o sorriso, mas devolva uma gargalhada. Olhe para mim e dê o amor que eu sempre lhe dei.
sexta-feira, agosto 13, 2010
Toca, toque
Vaga, mente, sinto, sente.
Teus olhos a me despir
Em meu pescoço, teus dentes.
Boca, muda, quente, beija.
Meus lábios santos, encantos,
Sentindo teu gosto canto a canto.
Sopra, vento, toca, pele, encosta.
Respire, suspire, acelere o ritmo, toque.
E toca... se toca... me encosta...
Mais uma, mais duas, mais três, mais ...
domingo, agosto 08, 2010
Você estava lá
Meu estômago doía tão insuportavelmente quanto a minha canela. Meus olhos mal conseguiam enxergar em função do suor e daquele sufocante capacete. As luvas cansavam meus braços, e o protetor no peito mais me desgastava do que me protegia. Antes do terceiro e último round começar, olhei a cadeira a qual deveria te encontrar, mas não te encontrei. A pancada no estômago me trouxe a realidade novamente e por pouco não fiquei sem ar. Consegui me esquivar dos outros golpes e reagir. Usei ambas as pernas para chutar o meu adversário e marcar pontos importantes. Desferi dois golpes certeiros em seu peito e por fim, venci. No ponto mais alto do pódio, recebendo a medalha mais desejada, procurei por seu sorriso, mas ele não estava lá.
Minhas pernas estavam cansadas, os músculos estavam latejando. Estava inseguro e assustado, era muita responsabilidade. O professor conversou comigo, como se soubesse o que sentia. Deu-me uma atenção especial, injetando força e confiança. Ele me mostrou que podia contar comigo e que eu não o decepcionaria. Foi aí que olhei a arquibancada na incessante procura do seu rosto. Mas você não estava lá. Meus amigos fizeram a parte deles, assim como o nosso goleiro, que defendeu o último chute do outro time. Era a minha vez, eu só precisava marcar o gol. O campeonato estava em meus pés. Caminhei em direção a marca do pênalti, olhando sobre meu ombro, procurando você. Ajeitei a bola, tomei a devida distância e bati com perfeição. Durante a corrida, a musculatura cansada não fraquejou, nem mesmo a incerteza do lado em que eu chutaria a bola. Eu coloquei a bola onde queria. Fiz o gol e meu time venceu, mas você não estava lá.
Todos os anos, quando chega esse dia eu me entristeço. Depois que você partiu, eu nunca mais encontrei o seu rosto para compartilhar comigo as vitórias e fracassos que enfrentei ao longo da vida. Mas depois de tanto ter chorado, depois de tanto ter lamentado a sua ausência eu pude perceber que aquele fôlego extra, aquela agilidade que precisei e a calma e tranqüilidade para o chute perfeito, foram graças a você. Foram nos momentos em que procurei pelo seu rosto e que não o encontrei, que você veio até mim. Foram naqueles momentos em que você me provou que estava lá. Você estava lá, meu pai! E só eu sei que estava!
sexta-feira, agosto 06, 2010
Meias Palavras
As palavras que saem de mim são sempre verdades.
Embora eu saiba dizer meias palavras.
Nestas metades, guardo a intensidade que você ainda não soube merecer.
Desvio os olhares sempre confessos.
É bom que eu te olhe pouco para que não saibas o quanto de ti há em mim.
É bom que não tenhamos tanto de nós um na mão do outro.
Minhas meias palavras...
E me calo...
Porque também sei ser silêncio.
Meu barulho faço para disfarçar minhas margens que transbordam de gestos teus.
Gravei teus movimentos...
Te sinto na sombra dos meus versos...
Do meu corpo soam tics e tacs que insistem em contar meu tempo.
Cedo ou tarde...
Nossas esquinas se cruzam no futuro de hoje.
E não há sobras de caminhos não traçados.
Somos inexatos...
Suspeitos por transformar a vida em doce.
Condenados a manter laços.
Mesmo que musicais...
quarta-feira, agosto 04, 2010
O Preto e o branco pintam as cores de que eu preciso
Pintava minhas cenas em tons previamente determinados,
pensando que as cores quentes trariam excitação
e que os tons pastéis pintariam romances rosados.
Me cansei das formas convencionais.
Moldava minhas telas em quadros normais,
achando que as bordas perfeitas, assim o eram
e que os pincéis não poderiam ultrapassar os limites.
Hoje eu prefiro a vida em preto e branco.
Sem medo que as folhas secas caiam sobre a tela,
sem me preocupar se insetos secaram sobre a tinta
e deixando que os pincéis criem vida.
Ali no canto, os tons cinzas podem dizer muito
e eu não preciso saber com antecedência.
Os olhos apenas fotografam o momento
enquanto deixo a luz se encarregar do resto.
Aquela poça, pode ser vinho escorrido de uma taça,
pode ser sangue de um corpo sem vida
ou água da chuva ou do chuveiro.
Podem ser as lágrimas de uma caneta tinteiro.
A rua pode ser um rio, a curva pode ser um fio,
pode ser um traço perdido ou um braço estendido.
O preto e o branco podem ser o roxo e o gelo,
podem ser um abraço ou um atropelo.
E num suspiro de final de tarde, reflito...
Para que preciso de cores pintadas em falso,
se tenho nos tons de cinza a vida correndo em tons reais?
Por que não deixar que os olhos sintam seus próprios sabores?
Não quero mais cores amargas, nem telas simétricas
Quero meus panos tortos, órfãos de molduras.
E as únicas cores que me permitirei pintar,
virão dos tons verdes e azuis de um certo olhar.
terça-feira, agosto 03, 2010
Cores
Com o tempo parado, eu poderia regar todos os jardins e fazer o verde respirar. Não tiraria o vermelho das rosas, e nem mesmo o amarelo dos girassóis. Faria com que ambas as flores se fundissem e só depois de ter feito o laranja eu deixaria o tempo correr para o sol se por.
Se eu fosse dono do tempo, eu poderia admirar as qualidades do negro e do branco. Faria o mesmo com o vermelho e com o amarelo. E quando o tempo voltasse a caminhar, todos poderiam dar mais valor para os outros.
Quando olho no espelho, percebo que não faz diferença se o tempo está parado, ou se ele está passando, sorrateiro por trás do meu ombro. O fato é que vejo um rosto que abriga todas as cores.
Então não faz diferença alguma se eu posso ou não controlar o tempo. Basta-me dar valor às cores.
sexta-feira, julho 30, 2010
Encena Ação
Em silêncio minha, tua flor.
Atenta aos teus passos, enfim...
Em mim... Criação, “Cria dor”.
Encena, acena, em cena.
Palavras soltas,
Letras tuas tão minhas.
Tão minhas cenas tuas.
Gastos os gostos em saltos de tempo.
Gestos intentos em busca de santos.
Santos olhares atentos, intentos...
Luzes teus cantos em busca de mim.
Olhos distantes que seguem sem sono.
Em segredos as saudades...
E no palco, repetidas cenas de preces...
Que volte, que fique, se entregue.
Pequenas cenas, repetidas preces.
Que volte, que fique, que sejam duas almas, uma.
Em cena, ação.
Encenação.
De coração, amor.
quarta-feira, julho 28, 2010
Psicopatia Verbal
Rotulam meu escrever
Psicopata... Dizem
Sim
Talvez o seja
Torturo as teclas
Entorto a tela
Vejo tinta e papel
Séculos retornam
Psicose
Compulsão
Insana idade
De nada vale
Experiência aqui?
Não
Insanidades...
Psicopata do verbo
Destroços e ruínas
Sentimento patético
O Sangue coagula
Alguém há de escrever
É lindo falar do lindo
E do feio, pois
Insano? Eu?
Apenas escrevo
Não possuo
Posse. Errata. Pose
Anjos falsos
Demônio em versos
Sim
Eu sou
terça-feira, julho 27, 2010
Diferença entre nós
Eu poderia intervir, alterar o curso das coisas e dizer aquilo que eles deveriam fazer. Poder para isso, não me falta. Pra ser sincero, eu tenho até de sobra. Mas não é esse o meu papel; eu devo apenas observá-los e defendê-los de um eventual ataque.
Por outro lado, meu coração se parte. A luz do meu corpo fica opaca por presenciar gestos e atitudes como essa sem fazer nada para mudá-los. Não consigo permitir isso, preciso salvá-los.
Sangue, ódio, ingratidão. Se me der um minuto, eu o completo com outros exemplos. Mas se me der a eternidade, não será demasiado tempo para dar mais exemplos, pois eles estão repletos de sentimentos que apodrecem a própria alma e enfraquecem a luz de meus olhos.
O fio da minha espada já não corta os demônios com tanta facilidade, assim como a cicatrização dos meus ferimentos já não é tão rápida como antigamente. A fé acabou.
Eu tenho o poder para interferir. Posso soprar-lhes algumas palavras as quais ajudariam a colocá-los nos eixos novamente. Eu poderia salvar os humanos da destruição. Mas se assim eu o fizer, estarei deixando de fazer aquilo que devo... E essa é a diferença que existe entre nós. Essa é a diferença entre os homens e os anjos.
sexta-feira, julho 23, 2010
Toca
Teus olhos a me despir
Em meu pescoço, teus dentes.
Boca, muda, quente, beija.
Meus lábios santos, encantos,
Sentindo teu gosto canto a canto.
Sopra, vento, toca, pele, encosta.
Respire, suspire, acelere o ritmo, toque.
E toca... se toca... me encosta...
Mais uma, mais duas, mais três, mais ...
quarta-feira, julho 21, 2010
Sua Dor
Faca feita de gelo
Me parte em dois
metade quer te amparar
metade quer beber suas lágrimas
É fria a sua imagem
Quadro feito de chuva
Me entorna, escorre minhas tintas
algumas cores querem te alegrar
outras querem absorver sua melancolia
É frio o seu lamento
Pote feito de ventania
Me esfria, me sopra o medo de te perder
tem cacos afiados pra cortar sua tristeza
e outros pra cortar minhas veias
É frio o seu sono
Música feita de preces silenciosas
Me ensurdece com a falta da sua voz
tem notas que querem te tocar
e outras que me impedem
É fria a sua tristeza
Poesia escrita sem motivos
Me rasga em pedaços diminutos
tem trechos que querem te exaltar
e outros que temem por terminar
É fria...
Mas eu estou aqui
É só chamar...
terça-feira, julho 20, 2010
Um pedaço de mim
e também já fui barbeiro.
Foram ótimas profissões.
Melhor do que ser pedreiro.
Não gostei de ser flanelinha,
Ou então policial.
Meu negócio foi ser cozinheiro,
profissão que não tem igual.
Confesso que não gostei
de ser professor.
Eu gostava de cortar cana,
e também de ser lenhador.
Seja com faca, machado ou punhal.
Esquartejei velho, criança e marginal.
O sangue espirra na roupa,
A carne é vencida pelo fio do corte.
Só falta uma lâmina para usar:
a foice da dona morte.
Não me venha com arma, pistola ou metralhadora.
Não existe sensação melhor, do matar com uma tesoura.
Sou um colecionador,
que admira uma lâmina cortante.
Minhas armas estão expostas,
No alto da minha estante.
Traga um pedaço de carne.
Escolha a arma que devo usar.
Só não instigue a minha vontade,
de querer te matar.
sexta-feira, julho 16, 2010
Chorei
Para não gastar poemas em reclamações.
Chorei porque as lágrimas me dão o gosto.
Não por viver nenhum desgosto.
Chorei porque preferi ficar ao partir.
A porta está sempre aberta. Pode sair.
Dei à noite as lágrimas que lavam melancolia.
Chorei porque ainda posso chorar sozinha.
Chorei porque amanhã é dia.
E renasço com o Sol.
E assim, vivo a fé, hipocrisia.
quarta-feira, julho 14, 2010
Se eu me inspirar em você...
Se eu me inspirar em você, sai poema
Daqueles assim, sem compromisso com rimas
Sem contagem de versos ou estrofes
Com palavras soltas, nem sempre fazendo sentido
De verbos corridos, conjugados em papel colorido
Se eu me inspirar em você, sai poesia
Daquelas assim, falando de tudo, ou de nada
De sentimentos falados, de forma velada
Veja... Viu acima?
Não tem regras nem sequência
Só amor e inconsequência, querência...
É brincadeira de coisa séria
De beijo desenhado...
De sonho sonhado acordado
E continua sem forma a poesia
Sem enrendo nem fantasia
Uma rima aqui, outra acolá
Mas nem sempre, que é pra não cansar
E continua você, a me inspirar
Nas letras, nos sonhos e nas noites
Nos tempos que ainda virão...
Ah, azuis...
Se eu me inspirar em você...
Pinto o mundo com o azul do seu olhar
Escrevo nos muros, o seu jeito de sonhar
Planto folhas brancas para ler o seu criar...
Se eu me inspirar em você...
Ahhh....